Quem costumava ir à Galiza, há algum tempo, terá certamente na sua memória as imagens da antiga fronteira de Valença do Minho. Filas intermináveis de carros aguardando a vez para mostrar os bilhetes de identidade, as declarações das crianças e só depois entrar no que nos parecia ser um país distante, bem diferente do nosso. Hoje em dia a antiga fronteira de Valença está completamente abandonada: a ponte com os símbolos dos dois países é pouco utilizada, uma vez que foi construída uma ponte bem mais moderna. Não deixa de ser um pouco assustador atravessar o Rio Minho por aquela imponente construção de ferro, observando que ninguém nos vê, nem de um lado, nem do outro. E o que outrora foi um percurso guardado por mil olhos é hoje um trecho que passa quase despercebido, não fossem as nossas memórias de infância.
E na altura, com a pressa de chegar a Tuy, nem nos apercebíamos da beleza de Valença e dos seus arredores. A princesa do Rio Minho guarda uma terra cheia de espaços e aldeias para descobrir, onde até pântanos existem, para não falar de uma fortaleza sobejamente conservada, onde o castelo guarda casinhas que nos lembram a aldeia de Asterix. Comecemos pelos pântanos, na aldeia de Veiga da Mira, uma das reservas naturais mais importantes de toda a bacia do Rio Minho, onde os patos bravos são avistados durante a Primavera e o cenário nos lembra o «Monte dos Vendavais», com a bruma a bater nas árvores e aquele friozinho de arrepiar a alma. Mas também o Parque Natural da Senhora da Cabeça, um lugar de contemplação, guarda grandes curiosidades a nível da fauna e da flora, ideal para descansar e praticar desportos náuticos. É aqui, entre o rio Minho e Praça Forte, que se encontra o melhor caudal para a exploração fluvial do Minho. Continuando para Norte, encontramos a Pesqueira de Cristêlo Côvo, onde a pesca passa de geração para geração, numa aldeia muito característica, com as suas vinte e poucas embarcações. E na Foz do Rio Minho, encontramos o seu pitoresco cais, onde dantes atracavam os barcos a vapor assim como se realizava a travessia para Espanha, nas características barcaças. Aqui, o melhor mesmo é sentar-se um pouco e contemplar: a antiga ponte da fronteira, a terras do Minho com as suas estradas quase escondidas pela vegetação dos montes galegos.
Álvaro Curia 2003-07-22