A Nazaré vista de cima
O mar está calmo e até o vento, assíduo frequentador da terra, deixou de aparecer, pelo menos por hoje. Aproveita-se as boas graças para passear pela terra de pescadores que é a vila da Nazaré. Vista de cima, que é como quem diz do Sítio, a praia é uma enorme baía azul-esverdeada. Parece tudo tão distante de nós, mas é pura ilusão, afinal se assim fosse, pouco distinguiriam os nossos olhos, o que não é o caso. Apenas um promontório nos separa daquele emaranhado de casas brancas mais ou menos constantes no tamanho (máximo três andares) que se alinham em ruas estreitas e que quase desembocam na areia. A vila está alinhada com o mar e para nós que estamos a vê-la de cima, até parece que lhe está a seguir a pista. Já vamos tirar isso a limpo, quando descermos até lá.
O Sítio
Longe vão os tempos em que não existia praia por causa da insistência do mar em avançar terra dentro. Por isso, até ao século XVI, os nazarenos viviam na Pederneira e no Sítio (locais que conjuntamente com a Praia constituem a Nazaré).
Este local de romaria e veneração, conhecido por Sítio, tem duas lendas que o sustentam. Uma diz que foi aqui encontrada a imagem de Nossa Senhora da Nazaré e a outra conta o milagre de D. Fuas Roupinho, alcaide (governador) do castelo de Porto de Mós. No longínquo ano de 1182, numa manhã de nevoeiro, D. Fuas montado no seu cavalo perseguia um veado que subitamente desapareceu no abismo. Estando apenas com as patas traseiras do cavalo seguras na rocha, temeu pela sua vida. Rogou auxílio à Senhora da Nazaré e imediatamente o cavalo recuou.
Como agradecimento, o cavaleiro mandou erguer junto ao desfiladeiro uma ermida que se passou a chamar da Memória. Lá dentro, voltada para o mar, está uma imagem da Senhora da Nazaré que zela pelos pescadores e abençoa-os. Os azulejos azuis e brancos que forram as paredes deste templo, contam o milagre. Para quem quiser saber mais, é só segui-los. Já mais difícil é saber o que se encontra dentro da gruta imediatamente por baixo da estátua da Senhora da Nazaré. Actualmente também está bem vedada por causa de histórias que se contam de pessoas que quiseram investigar onde ia parar e acabaram por nunca mais regressar. Ficção ou realidade?
E nós estamos aqui, junto ao bico da Memória, armados em investigadores à procura da marca da ferradura do cavalo de D. Fuas. Atrás de nós está o Padrão Vasco da Gama, que marca a passagem deste navegador, que em romaria aqui veio, antes e depois da sua viagem à Índia. Ali ao pé, o Santuário de Nossa Senhora da Nazaré, domina o largo com o mesmo nome. E já que se está aqui, aproveita-se para conhecer o Museu de Arte Sacra Reitor Luís Nési, logo ali ao lado, na ala direita do templo.
À esquerda do santuário encontramos ainda o antigo Paço Real, edificado em princípios de setecentos e ao fundo dessa rua, o Museu Etnográfico e Arqueológico Dr. Joaquim Manso. Mas isto claro, para quem quiser saber ainda mais.
Para se chegar ao antigo Forte de S. Miguel Arcanjo, pode ir-se pelas traseiras da Igreja de Nossa Senhora da Nazaré e assim aproveita-se a passagem para ficar a conhecer o Hospital da Confraria e o teatro Chaby Pinheiro. O primeiro tinha como missão a assistência física aos peregrinos e o segundo a tarefa de revigorar o espírito através da cultura. Se a curiosidade se impuser, o simples facto de bater à porta e pedir para visitar, pode revelar algumas boas surpresas.
Está na altura de retomar o caminho para o Forte. Construído em quinhentos para defesa da costa, obedece a uma planta de formato triangular. A instalação do farol é que foi mais recente e para o ano completa um século. Homens de cana na mão tentam a sorte. E nós a nossa. Ouvimos dizer que existia um caminho lateral à fortaleza e quisemos experimentar. Que vista! O chão deixa de existir e de repente só existem rochas, abruptas que chegam ao mar. Para ir até lá, há que descer por uma escada muito íngreme que por alturas das marés vivas, deixa de ser vista. Não é o caso de hoje. Cá em baixo só há pescadores, que a altura dos turistas já ficou lá atrás. Do outro lado é a praia do Norte, selvagem, apenas com ligação pelo Sítio. Se fosse Verão ainda lá íamos para fugir à agitação da Praia e claro, para ficar a conhecer a gruta do Forno da Orca. Agora, como a época balnear já passou, o destino é outro. A Praia está à nossa espera para um almoço com sabor a mar.
Desce-se para a “Nazaré” pelo elevador panorâmico, mesmo que se tenha vindo pela estrada e o automóvel tivesse sido o veículo. Quando isso acontecer há sempre o pai, a mãe, o irmão ou até mesmo o namorado para se convencer a viajar uns minutos solitário.
Paula Oliveira Silva 2002-10-08