Uma viagem épica
Ainda hoje os norte-americanos exultam Charles Lindenberg, que realizou o primeiro voo sem paragens entre França e os Estados Unidos, tornando-se assim no primeiro homem a cruzar o Atlântico Norte de avião sem escalas.
Nós por cá também tivemos um herói, ou melhor dois. O almirante Gago Coutinho e o oficial de marinha Sacadura Cabral, que fizeram a primeira travessia entre Portugal e o Brasil, inaugurando assim os voos entre a Europa e o Atlântico Sul. A epopeia demorou 62 horas e 26 minutos em tempo total de voo, ao longo de 8 383 quilómetros percorridos.
Porém, ao contrário do que aconteceu com Charles Lindenberg, não foi feita continuamente. Os dois aviadores partiram de Lisboa no dia 30 de Março de 1922, uma quinta-feira, e chegaram ao Brasil no dia 17 de Junho de 1922, um sábado. A viagem demorou muito tempo, bastante mais do que o previsto, devido às enormes contrariedades que ocorreram. O que estava apenas planeado para ser um voo de semanas com escalas que começavam nas Canárias e seguiam sucessivamente, demorou quase três meses.
Na verdade, não foram bafejados pela sorte e tiveram que trocar de avião, duas vezes, uma devido a avarias técnicas, e outra porque a aeronave despenhou-se e afundou-se quando um dos flutuadores se rasgou. Felizmente, estavam a ser seguidos por um barco da marinha que os resgatou dos tubarões.
No museu, observamos o avião, ou melhor a sua réplica fiel, e reparamos como é leve e frágil. Pousando a mão sobre os flutuadores, percebemos o quão fácil é que se rompam, o que infelizmente aconteceu com Gago Coutinho. Tirando a parte do cockpit, praticamente não existe mais ferro na estrutura, com a ressalva dos reforços das asas e dos apoios que ligam os flutuadores. De resto, tudo é madeira e tela de modo a tornar a aeronave mais leve e económica.
Os motores e os hélices
A ala dos motores e dos hélices é outro dos momentos altos da visita. Desta vez não se trata de uma réplica, mas sim de um verdadeiro Spitfire, o avião que ajudou os ingleses a enfrentar a poderosa Luftwaffe, a força aérea alemã durante a Segunda Guerra Mundial. Para os números de hoje é um caça inofensivo, mas na sua época, os quase 600km/h que atingia proporcionavam-lhe uma certa vantagem sobre os interceptors alemães e, como tal, conferiam-lhes o domínio dos céus. Para os padrões modernos, serve apenas para figurar em museus ou voar em demonstrações, não deixando de ser um marco na história militar.
Ao seu lado, está um enorme motor Rolls Royce, que apesar de pesado era capaz de pôr no ar aquele avião, disso não tenhamos dúvidas.
N' Dalo Rocha 2004-11-23