Lisboa subterrânea

Lisboa guarda muitos vestígios arqueológicos das sucessivas ocupações humanas ao longo dos séculos. A Baixa Pombalina e o Carmo são das áreas mais privilegiadas quanto aos achados apresentados aqui num roteiro de descoberta.

Atravessando a Baixa Pombalina em certas áreas, sob o a calçada renovada e os edifícios de traça original existem vestígios arqueológicos das sucessivas ocupações da cidade.

Agora, parte desse valioso espóleo arqueológico está à vista nas caves do edifício do Banco Comercial Português, num núcleo arqueológico privado, exibindo-se a evolução da cidade desde a época ibero-púnica (a partir do século VII a. C.), romana (entre os séculos I a. C. e V d. C.), e islâmica (século X d. C.), até à reconstrução pombalina iniciada após o terramoto de 1755.


Vestígios púnicos, romanos, islâmicos e pombalinos

Logo à entrada, o pavimento de vidro sustentado por estrutura uma metálica deixa entrever os vestígios de uma via romana de acesso às unidades fabris de conserva de peixe junto à antiga zona ribeirinha – grandes lajes de calcário rectangulares guardam as marcas dos trilhos das rodas.

Na sala principal do núcleo arqueológico, diversas montras apresentam os achados das escavações – potes, pratos, ânforas, taças, cântaros, urnas, faca, copo, tigelas, escudelas, bilhas, jarros, panelas, púcaros, alguidar, frigideiras, fragmentos de imagens e moedas – dos períodos púnico, romano, islâmico, pré e pós pombalino. Sob o soalho de vidro, está à vista uma vasta área com restos de muros pré-pombalinos descobertos durante as escavações.

Descendo por uma estreita escada de madeira, chega-se às caves e, através de passadiços de ferro suspensos sobre os vestígios arqueológicos, inicia-se mais um recuo no tempo. Primeiro, são os restos de habitações púnicas, datáveis entre os séculos V e II a. C.. Construções rectangulares cujas bases de pedra e argila sustentavam estruturas de caniços, revestidas de argila endurecida pela acção do fogo, que faziam de parede. O centro da habitação era ocupado por um círculo de seixos rolados que serviam de base para um fogareiro.

Mais história

Os primeiros vestígios romanos surgem mesmo ao lado das habitações fenícias, num amálgama de épocas diversas e sobreposição de solos. São tanques de salga romanos (cetárias) instaladas sobre o assoreamento das estruturas ibero-púnicas que, por sua vez, serviram de necrópole romana, apresentando sinais de rituais de inumação e cremação. Num canto da parede oposta, entrevê-se um esgoto pós-pombalino do século XVIII.

Na sala seguinte, cinco tanques de salga alinham-se em ambos os lados, juntamente com potes e loiças romanas utilizadas na preparação de variados molhos de peixe (garum, liquamen, muria e ballec), macerados de restos de peixe, sangue, ovas, mariscos, sal e ervas aromáticas muito apreciados pelas elites romanas. Aqui e ali há sinais de um poço pombalino implantado no século XVIII, bem como parte da estacaria pombalina em pinho verde e os primeiros esgotos criados por toda a cidade nesse período.

O complexo fabril romano que se prolonga sob a rua Augusta perfaz um total de 25 tanques e inclui um poço romano de planta circular alimentado pelo nível freático. Esgueirando-se pelos corredores de tecto baixo que se prolongam além da sala em que estão expostos os tanques de salga, chega-se a um pequeno compartimento onde repousa um esqueleto do período páleo-cristão, numa área do complexo fabril entretanto abandonada por volta do século V d.C. Um soco de suporte de um arco pombalino ainda é visível ao nível do rés do chão, bem como esgotos domésticos e um alicerce da mesma época, e também um conjunto de ânforas lusitanas utilizadas no acondicionamento para exportação dos preparados piscícolas por quase toda a Europa.

A completar a visita, uma sala apresenta um conjunto balnear da época romana composto por três piscinas – frigidarium (banho frio), caldarium (banho quente) e tepidarium (banho tépido) – que rodeiam um intrincado mosaico da segunda métade do século III, composto por quatro painéis de seis cores, decorados com figuras geométricas e entrelaçados, em formas de suásticas, quadrados, peltas, motivos fusiformes e diamantes.

Quase em cima desse extraordinário mosaico romano assentam-se silos árabes e um forno pombalino de tratamento do ferro, em articulação com uma forja, cujas câmaras de combustão e o anel em tijolo de arranque da abóbada foram salvaguardados, afim de mostrar que a Baixa Pombalina também serviu para a instalação de algumas actividades industriais e oficinais, além do sempre presente comércio.

Museu Arqueológico do Carmo, Casa dos Bicos e outros locais

Mas Lisboa tem mais surpresas. Desde a segunda quinzena de Junho, o público pode visitar o novo Museu Arqueológico do Carmo, nas ruínas e na Igreja do Convento de Nossa Senhora do Vencimento do Monte do Carmo ( é esse o nome completo), fundado por D. Nuno Álvares Pereira, o Condestável, em 1389, e onde se encontram em exibição exemplares arqueológicos desde a pré e proto-história (Paleolítico, Calcolítico, Bronze Antigo e Idade do Ferro), períodos romano, islâmico, manuelino, moçárabe e hebraico, objectos da Renascença e do estilo gótico e mesmo das civilizações pré-colombiana, egípcia e peruana – e inclusive um conjunto de múmias.

Dos variados achados no local e das peças oriundas de diversos sítios do país, destacam-se a colecção de tumulária dos séculos XIV e XV, especialmente os túmulos de D. Fernando I e sua mãe D. Constança, de D. Nuno Álvares Pereira e de S. Frei Gil de Santarém, e a escultura de D. Afonso Henriques.

Exemplares de cetárias romanas também podem ser vistos na Casa Napoleão, na rua dos Fanqueiros, nº 70, onde se encontram vestígios de um tanque de salga romano e duas ânforas lusitanas. Na Casa dos Bicos estão à mostra quatro tanques de salga romanos, partes da Cerca Moura de Lisboa e um pavimento árabe de tijoleira em espinha.

Alguns exemplares de cerâmica e moedas dos séculos XVI, XVII e XVIII estão expostos em montras na loja Mac Donalds da Rua Augusta. Já os restos do Torreão e da Muralha Fernandina, construída entre 1373-75, podem ser apreciados no Centro Comercial e Cultural Espaço Chiado, com entradas pelas ruas Nova da Trindade e da Misericórdia.

Nysse Arruda 2001-07-11

Receba as melhores oportunidades no seu e-mail
Registe-se agora