Faz de conta que vamos passear com Eça de Queirós. Sem grande esforço, até porque aqui adiantamos o que é preciso saber, iremos percorrer as ruas, os cafés e os lugares que o escritor escolheu para contar as suas histórias. Vamos andando. O ponto de encontro é o Cais do Sodré, mais precisamente no início da Rua do Alecrim. Do lado nascente, situava-se o Hotel Central, o hotel mais referenciado da obra queirosiana. Aqui esteve hospedado Bazilio, o primo. E foi também este o local escolhido para o jantar de homenagem ao banqueiro Cohen, em “Os Maias”. Este jantar serviu também para proporcionar a Carlos a visão de Maria Eduarda, que se encontrava aqui alojada. O edifício ainda lá está, mas funciona como banco.
Continuando a subir a mesma rua, no Largo Barão da Quintela, está um monumento a Eça de Queirós. O escritor sustentando a Verdade, numa cópia em bronze da escultura de mármore de Teixeira Lopes (1903), que a executou três anos depois da morte do homenageado. A seus pés o lema que abre “A Relíquia” e que define o próprio Eça: “Sobre a nudez forte da verdade – o manto diáfano da fantasia.” O original encontra-se preservado no Museu da Cidade. No final da rua, a Praça Luís de Camões. Após 10 anos de retiro para o estrangeiro, Carlos da Maia chega aqui e constata o imobilismo de Portugal. “A mesma sentinela sonolenta rondava em torno à estátua triste de Camões.” No então Loreto, actual Largo do Chiado, estão duas igrejas frente a frente. Uma é a da Encarnação, a outra é a do Loreto, cuja missa da uma hora, ao domingo, era a mais chique da capital. Adiante. Há que subir pela Rua da Misericórida até ao Teatro da Trindade, onde decorreu o Sarau Literário, de “Os Maias”. Eça descreve o carácter postiço da alta sociedade. A pouca vontade de ir ao sarau era apenas compensada pela oportunidade de verem e serem vistos. O gosto pela cultura ficava em segundo plano. Há coisas que teimam em não mudar.
"- Então, definitivamente, Vossa Excelência não vem ao sarau da Trindade?…
- Não me interessa, estou muito cansada…
- É uma seca – murmurou Carlos (…)
- Ega protestou. Também era uma maçada subir às pirâmides no Egipto. E no entanto sofria-se invariavelente, porque nem todos os dias pode um cristão trepar a um monumento que tem cinco mil anos de existência…
- Vá, coragem! Um chapéu, um par de luvas, e a caminho!”
Aproveitando a deixa, desça até ao Largo da Abegoaria, actual Largo Rafael Bordalo Pinheiro. Aqui situava-se o Casino, onde tiveram lugar as Conferências Democráticas, que tinham por objectivo a “transformação social, moral e política dos povos”, pelas palavras de Eça. O velho Casino deu lugar ao actual Edifício Garrett.
Paula Oliveira Silva 2001-10-31