Na estação do Tua os ponteiros de um relógio velhinho, pendurado por cima da bilheteira, vão avançando sem pedir licença. Já passam pouco mais da 10 horas da manhã.
Os turistas de máquina fotográfica misturam-se com as pessoas da terra, habituadas a estas andanças. Nos bancos frios e verdes da estação as pessoas vão ocupando o tempo como calha. Uns aproveitam para ler atentamente as notícias do dia enquanto alguns, mais preguiçosos, dormitam meio caídos uns sobre os outros.
Ao longe, o ruído do ferro deslizando sobre o carril é cada vez mais audível. Poucos segundos depois chega um enorme comboio.
Falsa partida
É altura de dobrar o jornal em quarto ou acordar, depende da distracção. A agitação toma conta da estação até aí pacata e monótona. As carruagens estão quase cheias. De repente, uma voz grossa, saída de um qualquer altifalante escondido, anuncia a partida deste comboio. O destino é o Porto. A desilusão toma conta dos pessoas que esperavam ser este o que as levaria até Mirandela. Mas não faz mal, afinal não falta assim tanto para a hora da partida e pode-se sempre aproveitar para tirar as primeiras fotografias do dia.
Pouco tempo depois, à linha dois chega finalmente o comboio para Mirandela. Uma carruagem verde bastante mais moderna daquela que partira para a Invicta. É o chamado metro de superfície. Mais confortável sem dúvida, mas muito menos tradicional. Sinais dos tempos e o resultado de esta ser uma linha essencialmente turística.
A voz grossa volta a fazer-se ouvir. “Senhores passageiros o comboio com destino a Mirandela parte dentro de dois minutos”. É altura de entrar o mais rápido possível. Antes, um homem vestido como mandam as regras, de azul, com uma lapela da CP no casaco, confere os bilhetes dos passageiros. O mesmo homem, que poucos segundos depois levanta uma bandeira verde anunciando a partida.
Até Mirandela
São 11 horas da manhã. É o início da uma viagem e a paisagem promete que ela vai ser boa. Os passageiros estão sentados nos seus lugares. O comboio avança lentamente junto à margem do rio, por entre curvas, subidas e descidas. O cenário é de sonho, e talvez por isso esta linha seja considerada o mais bonito traçado ferroviário português.
A água mistura-se com o verde das serras. Lá em cima, as casas bastante distanciadas umas das outras parecem ter sido plantadas juntamente com as vinhas que as circundam. Do lado direito o cenário é substancialmente diferente. Colada à linha elevam-se umas enormes fragas rochosas. Tão altas que da carruagem mal se consegue ver o seu topo.
Nuno Maia 2001-11-28