Juntámos um grupo de amigos (cerca de 30, coisa pouca) e rumámos até à Régua para usufruir de um dos Serviços Charter propostos pela CP: neste caso, um comboio historio inteiramente à nossa disposição que nos levaria a descobrir os encantos da Linha do Corgo, entre a Régua e Vila Real.
Há 100 anos atrás
A Linha do Corgo foi inaugurada em 1906, com pompa, circunstância e direito à presença do rei D. Carlos, que testemunhou ao vivo o admirável feito. Afinal, trata-se de fazer com que uma pesada composição percorra 26 quilómetros em constante curva e contra curva, desde a margem do rio Douro, na Régua, até à cidade de Vila Real, em pleno planalto transmontano, o que equivale a um desnível de 360 metros.
A única coisa que mudou entre então e hoje foi a locomotiva, que já não é a vapor. À nossa espera estava uma Locomotiva 9004, a diesel, trazendo consigo duas carruagens que remontam ao início do século XX, com capacidade total para 96 passageiros – o que significa que para a próxima podemos trazer o triplo dos amigos!
Instalamo-nos bem à vontade e preparamo-nos para a partida. Os primeiros metros deste troço fazem-se na única via algaliada actualmente utilizada pela CP: uma via com carris de duas bitolas diferentes. Uma vez ultrapassados os limites da Estação da Régua, passamos uma ponte sobre o Douro, ladeada pela Casa do Douro, e aproveitamos para nos despedirmos deste rio.
Isto porque é um seu afluente que nos vai acompanhar ao longo do percurso: o Corgo, precisamente o responsável pelo nome dado a esta Linha, com um leito de 40 quilómetros de comprimento e acentuada inclinação, desde a nascente, no concelho de Vila Pouca de Aguiar, até à foz, junto à cidade do Peso da Régua, na margem esquerda do Douro. De caminho passa por Vila Real e pelo concelho de Santa Marta de Penaguião. As suas águas são fundamentais para as populações assentes nas suas margens, que até vêem nelas mais do que uma forma de subsistência, pois consta que possuem propriedades terapêuticas.
Desde logo a paisagem se caracteriza pelo predomínio da vinha, pontilhada por algumas oliveiras. Por entre os socalcos surgem algumas quintas majestosas, ligadas à produção de Vinho do Porto.
Na breve paragem em Alvações podemos perceber porque esta freguesia do concelho de Santa Marta de Penaguião é apelidada de “a Coimbra do Corgo”: o recorte do casario, rematado por uma torre, lembra a mais antiga universidade do nosso país. Segue-se a Povoação, onde nos cruzamos com uma composição moderna, a fazer lembrar um autocarro sobre carris, que percorre esta mesma linha várias vezes por dia.
Personagens
Chegamos a Carrazedo cheios de curiosidade, dadas as histórias que já ouvimos contar. É que aqui, devido às as exigências orográficas do terreno, o comboio arranca da estação e percorre cerca de um quilómetro quase circular, para vencer o exigente declive que se avizinha. Acontece que, no tempo da locomotiva a vapor, os jovens (militares, sobretudo) apeavam-se em Carrazedo e faziam “corta-mato” pelas vinhas para encher os bolsos, retomando o seu lugar apenas 70 metros à frente da estação, em linha recta, onde a composição chegava após esforçado empreendimento.
Ana Marta Ramos 2006-07-12