Lawrence’s Hotel

O segundo Hotel mais antigo do mundo. Requinte e sobriedade centenários em Sintra onde Lord Byron e Eça foram hóspedes famosos.

Um hotel com duzentos anos

Apesar dos seus muy dignos 200 anos, não espere encontrar um “ancião”, carregado de velhas relíquias e antiguidades que permaneceram da época da inauguração. Em funcionamento desde 1764, o actual Lawrence’s já conheceu vários nomes, outros tantos proprietários e, muitos ilustres visitantes.

Lord Byron, Eça de Queiroz, Alexandre Herculano, Bulhão Pato escolheram aqui ficar. Desde a reabertura, há apenas três anos, já Rainhas e Chefes de Estado aqui dormiram. Muito recentemente e, ainda mais secretamente, o ex-presidente Bill Clinton escolheu-o para uma temporada de golfe.

Não é um Hotel grande, apenas 11 quartos e cinco suites, algumas salas de estar e um pequeno bar. A entrada e a recepção não impressionam particularmente, funcionais e simples, são o ponto de entrada para um hotel, que bem podia ser a casa de alguém. Quem sabe se de uma qualquer tia já velha de gosto sóbrio. Os quartos foram baptizados com nomes ao invés dos tão banais números. Assim, Lady Lawrence, Monte da Lua, Bela Vista e Bulhão Pato, são alguns dos quartos onde se pode ficar.

Em comum, os quartos apenas têm o conforto e uma atmosfera de luxo discreto. Alguns contam com lareira mas o que é mais ao menos predominante (e não só nos quartos), são os padrões floridos dos cortinados e de alguns sofás que acrescentam uma atmosfera very british.

… e cinco estrelas

Já que tantos escritores célebres escolheram o Lawrence’s para estar, o sítio deve ser fonte de inspiração. Talvez pelo sossego do lugar, ou talvez pela envolvência da paisagem de Sintra. Quem sabe, se aqui é o sítio certo para o início de uma carreira de escritor. Salas acolhedoras não faltam, propícias à leitura e à escrita, a uma aconchegante conversa, com ou sem brandy, ou simplesmente perder o olhar no fogo das lareiras.

Numa das salas, um pesado sofá de veludo ao lado de uma pequena e leve cadeira alentejana . Contrastes e combinações de um toque inglês com artesanato português que não nos deixa esquecer que estamos em Sintra e não numa qualquer mansão inglesa. Mesmo o tempo que habitualmente se faz sentir em Sintra, húmido e de atmosfera nublosa podia levar-nos ao engano.

A pequena biblioteca, também esta com lareira, é um espaço muito acolhedor. Há que deixar correr os olhos pelos títulos da estante e, caso se tenha tempo, ler as memórias de Winston Churchill em 10 volumes. Variadas obras de Lord Byron marcam presença e Os Maias para o caso de alguém os querer reler, não na língua de Camões mas na de Shakespeare. O melhor mesmo é tirar uns dias.

Jan Bos, o empreendedor proprietário que pôs o Lawrence’s a receber pessoas depois de vários anos fechado, fala com visível orgulho e satisfação do seu “restaurante com quartos”, como ele prefere referir-se à sua jóia. Gosta de dizer que não tem clientes mas sim convidados. E é realmente assim que nos sentimos. Desfaz-se a ideia que a maioria dos hóspedes são estrangeiros. Muitos portugueses gostam de ali “passar luas de mel que não são bem luas de mel” - diz com um tom maroto e à laia de “do you know what I mean?” Acho que sim. Foram 10 anos a reconstruir. Só muita vontade e persistência tornaram possível recuperar o arruinado edifício. Quando Jan Bos e a sua mulher chegaram a Portugal o primeiro objectivo era ter um restaurante de grande qualidade. A cozinha é a sua primeira paixão e o seu refúgio, onde passa horas a preparar uma refeição. Gosta de experimentar combinações de diversos ingredientes que a maioria não se atreveria sequer a pensar misturar quanto mais a cozinhá-los. Quando é bem sucedido gosta que os seus cozinheiros desenvolvam a técnica e participem criando uma nova receita a servir no restaurante do Hotel. Uma espécie de alquimista da cozinha.

Tomás Parreiro 2002-03-19

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