A primeira “sala” é o Parque das Esculturas. Oliveiras e pinheiros dão as boas vindas num espaço totalmente relvado e povoado de cavaletes, o que é facilmente compreensível. Ao fundo nada mais a não ser o Tejo. E Lisboa, claro. Linda e imponente. Quantos pintores e poetas não se terão inspirado nesta visão… Com certeza que vai custar desprender o olhar. É irresistível. Que inveja teriam os impressionistas ao serem confrontados com esta luz. As cores até ficam mais evidentes com o brilho do sol. Todo este espaço é um estímulo aos sentidos. E que dizer do aroma de certas plantas despertado pela brisa que as mistura com o cheiro a rio… Que as plantas têm poderes curativos já toda a gente sabe, o que se calhar poucas vezes passa pela cabeça é que serviam de base artística. Ah, pois é. E as seis diferentes áreas dos jardins, apesar de ainda não se encontrarem completamente preenchidas, ensinam-nos isso mesmo. Em vez da areia da praia, a terra firme. Em vez do mar, a água da rega. Em vez do sol, a sombra das árvores. É assim uma tarde de verão no Chão das Artes, em Almada. Um jardim onde se vai conhecer as árvores, arbustos e flores, e a sua utilidade para as artes. Identificadas e classificadas as espécies do jardim, a ideia é dar a conhecer os materiais vegetais utilizados pelas artes plásticas. O projecto foi semeado há pouco mais de um mês e já deu frutos. No Jardim dos Pigmentos cultivam-se as plantas das quais se extrai a tinta. A videira é uma desses espécies, uma verdadeira fonte de negro. Carbonizados os seus ramos jovens obtém-se o lápis de carvão vegetal. As coisas que se aprendem aqui. O Pomar das Gomas é constituído por árvores de fruto de onde se colhe a goma utilizada em diferentes técnicas de pintura. A da amendoeira, por exemplo, é usada como ingrediente na diluição de pigmentos, servindo ainda, a casca do fruto carbonizada, para se obter tinta preta.
Há ainda o Jardim dos Pintores com flores que ao longo dos tempos foram representadas por diversos artistas. É é claro que não poderiam faltar os girassóis, esses mesmos que encantaram Van Gogh. As dálias e os lírios também não foram esquecidas. E depois é um sem número de curiosidades que vão sendo descobertas… No Jardim dos Óleos, como o nome indica, ficam-se a conhecer quais as plantas cujas sementes dão um óleo bastante útil na diluição de pigmentos. O linho, o alecrim e a papoila são algumas delas. No Jardim das Telas existem plantas cujas fibras são utilizadas para a produção de telas. O linho, o algodão ou o sisal são as mais usadas. Por último a Mata, de onde são extraídos diversos tipos de madeira utilizada como suporte de painéis, telas e retábulos e ainda na escultura. Muitos destes saberes ou já foram esquecidos ou já não são ensinados. É que é muito mais fácil comprar os materiais de pintura numa loja da especialidade do que os preparar quase que alquimicamente. Agora se este é o pensamento, o que seria dos grandes pintores quando ainda não existiam os sintetizados… Difícil seria ver Leonardo da Vinci a comprar tintas feitas. E depois sem estas receitas o trabalho dos restauradores ficaria limitado. Não seria possível reparar uma obra centenária sem prejudicar as cores e texturas do original utilizando materiais produzidos industrialmente.
Complementa o jardim, a estufa, que aloja as espécies vegetais que necessitem de controlo ambiental. Simultaneamente expõe material relacionado com o tema. A qualidade ambiental do jardim é garantida pelo sistema de rega que apresenta diversas formas servindo simultaneamente de delimitação dos espaços. Assegura ainda a sobrevivência dos nenúfares que não conseguiriam subsistir sem o precioso líquido. Existe ainda um anfiteatro ao ar livre enquadrado pelo monumento vegetal do dragoeiro, por sinal uma fonte de várias tonalidades de vermelhos. É um bom sítio para usufruir da vista sobre Lisboa. Por todo o jardim encontra ainda recantos com varandas caiadas de branco. O local ideal para um fim de tarde, com as cores quentes do sol quando se põe, espelhadas nas águas do Tejo. Que bem que se está aqui.
Paula Oliveira Silva 2001-07-18