Ir a um leilão

Quem dá mais?

“Lote número 5, prato da Companhia das Índias (...) Está partido mas tem os pedaços. 50 euros, 50 euros, tá nos 50 euros. 50 euros tenho, 60 ao telefone, 70 ao fundo da sala, 80 euros tenho comigo, 80, tá visto por 80 euros. Raquete 518.”

A velocidade do leiloeiro quase o confunde com um comentador de jogos de futebol. A este responsável cabe assentar o preço e a numeração que consta da raquete, uma forma rápida de registar o comprador que previamente tinha preenchido uma ficha com os seus dados pessoais.

Já não se grita “dou mais 20”. Toda esta venda pública está mais ou menos envolvida em discrição. Basta o gesto subtil de levantar a raquete que o leiloeiro logo regista a ocorrência. Muita concentração precisa este homem sempre a olhar para os vários pontos da sala. Nada lhe pode falhar. Numa mão tem o microfone, na outra o martelo pronto a arrebatar mais um lance. A mão só fica liberta para pegar na caneta ou para carregar no botão do sistema de projecção que amplia as fotografias dos objectos a leiloar.

Rapazes entram e saem individualmente exibindo as peças de pequeno porte. Algumas são bem mais reduzidas do que parecem na imagem. Por isso mesmo é que a acompanhar a fotografia vem o objecto a leiloar. Loiça da Companhia das Índias, vasos em porcelana, imagens sacras, objectos de talha dourada como candelabros... e no meio disto tudo são as peças mais insólitas que causam mais disputa. Uma simples caixa de esmolas ou uma pintura que retrata um cemitério são dois bons exemplos.

Cómodas com vários séculos, arcas com incrustados, uma mesa de jogos em meia-lua ao estilo D. Maria, uma cama de bilros... É como se vê, mobiliário de diferentes épocas e outros tantos materiais. Pau santo, vinhático são madeiras muito encontradas nos antiquários.

Se há peças que parecem demasiado caras à primeira vista, lembra-te que a carga histórica também é tida em conta. Mas nem tudo começa nos 500 euros. Por uma base de licitação de 50 euros já consegues entrar no circuito dos pratos de porcelana orientais. Só não garantimos é até onde o preço pode disparar. Uma coisa é certa, para estes valores a subida é sempre de 10 em 10 euros, mas a partir dos 200 euros já se salta de 20 em 20 e para objectos ainda mais caros, então é de 100 em 100.

Tratando-se de mobiliário a tendência é sempre a subir, o mesmo se diz para as pinturas e alguma arte sacra, principalmente no que toca a talha dourada. Autênticas preciosidades.

Mas um leilão não é só o acto de licitação. É o culminar de um processo que inclui a visita prévia à exposição uns dias antes pela tarde e à compra do catálogo (25 euros) para estudo dos casos. Neste livro constam as fotografias de todas as peças que vão a leilão em cada dia da semana, características principais, como o material de que são feitas, ornamentação, dimensões, ano, condição actual (se precisa de restauro...) e a base de licitação seguida de uma previsão para o máximo que determinada peça obterá. Às vezes extrapola e muito, superando todas as expectativas. Outras, pura e simplesmente são retiradas porque não se registou nenhum lance.

Tiram-se apontamentos, fazem-se contas. Ao preço arrematado por cada peça há que juntar uma comissão de 11,9% e só assim se obtém o valor real a comprar. As 21h30, início do leilão já lá vão há muito. Já se vai a caminho da uma da manhã e ainda se negoceia. Quanta coisa passou esta noite por este leilão, à ordem das 100 peças por hora. Quase não há tempo para pensar, por isso aconselha-se o estudo prévio. Indecisões podem deitar tudo a perder, assim como as precipitações.

Dentro da assistência, as motivações são muitas e variadas. Para revenda, é um facto, para outras casas de antiquários e até para interessados no estrangeiro. Mas também há o particular que aprecia e gosta de ter em casa.

“Gostas do vaso? Vá lá diz lá. Se gostares compro.”

“Fica bem na sala, não fica?”

Estas sessões repetem-se por todos os dias desta semana. Não percas a oportunidade de te iniciares do mundo da arte.

A realizar em:
Cabral Moncada Leilões
R. Miguel Lupi, 12-D
1200-725 Lisboa
Telef.: 213 954 781
Fax: 213 955 115

Mais informações em:
www.cabralmoncadaleiloes.pt

Paula Oliveira Silva 2004-02-17

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