Quando se chega a terras beirãs, é um prazer seguir o caminho até Alpedrinha. A frescura da paisagem e a arquitectura granítica constroem um quadro tão característico que apetece guardar na memória por tempos e tempos. Por se situar a vila numa encosta da serra da Gardunha o ar é completamente puro. É de encher os pulmões vezes sem conta até chegar o cansaço proveniente de tal exercício. Esta é uma razão mais do que válida para quem resolveu deixar para trás os grandes centros e dedicar-se de corpo e alma ao campo. Mas há mais. De fundação pré-histórica, Alpedrinha foi posteriormente atravessada por uma via romana que ainda hoje lá se encontra. Se fizer um esforço é provável que conheça a vila como sendo berço do célebre Cardeal D. Jorge da Costa. Alto dignatário da igreja católica romana, foi a figura portuguesa mais notável em Itália no final do século XV e princípio do século seguinte, mas quase desconhecida em Portugal. Conhecido por Cardeal de Alpedrinha, chegou a ser eleito Papa, tendo abdicado em favor de Júlio II, de quem era muito amigo. Chegou inclusivamente a testemunhar a aceitação da divisão do mundo entre Portugal e Espanha decidida no Tratado de Tordesilhas. Já sabia disto? Ainda hoje se conserva na sua terra natal a casa da família.
Um dos primeiros turismos de habitação
Nesta bonita terra existe uma casa diferente das restante. Não é só porque não existem duas casas iguais, mas principalmente pelo propósito a que se dedica: o Turismo de Habitação. Chama-se Casa do Barreiro e o nome vem mesmo a propósito. Destas terras predomina o barro. Se por aqui vier percebe isso bem. E vai ter ainda o privilégio de poder estar numa das primeiras casas de Portugal a ser convertida neste tipo de turismo.
O bonito edifício, de princípios do século passado, chama a atenção. Rodeado de vegetação densa, sobressaem os três pisos detentores de uma interessante estrutura de telhados de diversas alturas com terraços cobertos e águas-furtadas. Imponente, sim senhora. E o interior não desmente o que diz a fachada. Os tectos e chão de madeira, são imprescindíveis nos dias de maior frio. O mobiliário é cuidado, obedecendo a diversos períodos. Que o digam os quartos com distintos móveis de estilo. Entre eles conta-se o indo-português com dossel e Dona Maria, só para citar alguns. E as vistas? Até apetece acordar mais cedo para poder ficar na cama a contemplar a paisagem, nem que seja por breves minutos. Se não se importar com o estilo da mobília, quem sabe se a escolha do quarto não possa depender da panorâmica? Quer serra, planície, ou ambas?
No resto da casa, dominam o mobiliário antigo e objectos de família. Constam do “inventário”, embutidos de pau santo, um piano de mesa com mais de duzentos anos e livros, muitos livros de família que foram passando de geração em geração. Ora aqui está um bom pretexto para dois dedos de conversa com a dona da casa, Francisca Cabral. Filha de um escritor, Alberto Pereira de Almeida, tem muito que contar acerca da sua ascendência. Pode-se perfeitamente ficar ali a conversar um serão inteiro, sobre tudo e sobre nada. Que é como uma boa conversa deve ser.
Lendas e pedras de Alpedrinha
Bem aproveitada a casa, impõe-se uma visita à vila, autêntico monumento em ponto grande. Antiga sede de concelho, a lembrá-lo ainda se encontra numa das suas ruas o pelourinho símbolo da Justiça praticada. O Monumental Chafariz de D. João V, ou Fonte das sete bicas, também é outro motivo de visita. Em granito, como não poderia deixar de ser, tem como remate uma coroa com as armas reais. Diz uma inscrição que foi construído “para felicidade da pátria”, já que as águas eram “explêndidas”. Não fica difícil acreditar. Segundo os entendidos nesta matéria, é um dos maiores do país e as três bocas da fonte suscitaram uma lenda bem engraçada. Diz-se que a da esquerda está destinada às crianças e solteiros, a do centro aos casados, e a da direita aos viúvos e bruxas. Diz-se também que quem prova desta água e não é da terra, voltará mais tarde a Alpedrinha. É uma questão de experimentar para saber se é verdade.
Paula Oliveira Silva 2002-01-29