Guerrilha urbana em centro comercial

Com que então deixou as compras todas para o fim, foi?

Pronto. Como de costume, ficou tudo para o fim. Era desta, era. Mas não foi. E agora? Agora já não dá para os presentes escolhidos a dedo nas lojas do bairro. Postas as coisas assim, há que estar preparado para enfrentar a guerra. Sim, porque entrar num centro comercial, ou nas ruas movimentadas da Baixa, em época de Natal pode ser um verdadeiro martírio. Milhares de pessoas, gritos, confusão, filas enormes, horas para estacionar o carro, e pior que tudo, esperas desesperantes para pagar. Tudo porque a pessoa da frente decidiu, naquele instante, naquela loja, comprar os presentes para oferecer ao tio, à mulher, à sogra, ao irmão, aos pais, ao tio avô moribundo e rico, que não via há um ano, à prima feia que emigrou para a Escandinávia faz dois anos, ao porteiro. Nem o homem do talho escapa, ao último modelo do porta-chaves do Benfica. Tentar fugir deste cenário é quase impossível. A solução é enfrentá-lo, pôr em prática algumas técnicas básicas de sobrevivência, para evitar, ou pelo menos escapar, a algumas destas situações. Do mal ao menos.

Estacionar o carro

As dificuldades começam à chegada. Encontrar um lugar pode demorar, no mínimo, uma semana, e já não há tempo para tanto. E isto se não ficar retido numa enorme fila, só porque dois automobilistas resolveram envolver-se numa discussão, para saber quem encontrou primeiro aquele lugar que tanto ansiavam.

Neste caso, convencer uma amiga que esteja à espera de bebé a ir consigo às compras pode ser uma óptima solução. Consegue-se parar o carro num dos lugares reservados, que ainda por cima ficam junto às portas de acesso aos centros. Se não se conhecer ninguém nesta situação, ou se o poder de argumentação não tiver sido suficiente, mesmo com a promessa de se oferecer um relógio, pode-se optar por uma amiga sem barriga mas com almofada, escondida por baixo da camisola.

Depois basta fazer um ar de futuro pai babado e continuar sempre sorridente para não dar nas vistas.

Em último caso, e só mesmo em último caso, leve umas muletas e finja que está magoado. O problema não é não ser muito correcto fazer isto, é que andar às compras de muletas cansa muito.

A chegada

A chegada Conseguido o lugar do carro, vamos enfrentar as feras. A escolha da indumentária é muito importante e há vários caminhos por onde seguir. Uma das possibilidades é encher-se de casacos, blusões, tudo o que aumente o seu volume. É uma maneira de conquistar território. Mas há uma estratégia melhor. Mais arriscada, mas seguramente melhor. E, pense nisso, o que importa, neste caso, é o resultado final: fazer o maior número de compras no menor tempo possível. Assim sendo, ouse travestir-se. Isso mesmo. Com escândalo. Homens de vestido comprido cor de rosa e luvas compridas de seda. Senhoras de blusão de cabedal, gravata e, porque não, um ligeiro buço em tons de roxo. É passagem garantida. Entre a populaça escandalizada e estarrecida, passa-se alegremente. (Esta opção é altamente desaconselhável para quem fizer as compras nas ruas lá do bairro e, no geral, para figuras públicas. De resto, convém não fazer desta opção um modo de vida. A menos que goste, claro.)

Nuno Maia 2001-12-19

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