O discreto charme de outros tempos
Ainda retenho na memória dos meus tempos de infância a mesma imagem da Curia, como sendo a mais bonita estação de comboios da linha do norte. Plataformas de calçada portuguesa e jardins com sebes muito bem tratadas.
Volvidos todos estes anos, a estação continua bonita assim como a vila, que não perdeu o seu encanto. A entrada ainda se faz pela mesma frondosa alameda de plátanos, que me conduz à rotunda do parque onde se encontra o balneário termal, o mesmo que transformou esta discreta terra no destino da alta burguesia nos idos anos 20 e 30. Aliás, rezam as crónicas que nesses tempos não havia comboio da linha do norte que não parasse lá, nem mesmo os que iam de Lisboa ao Porto. Outros tempos, para recordar.
Sem dificuldades maiores, encontro o Grande Hotel, a primeira unidade do género a ser inaugurada ainda no séc. XIX, corria o ano de 1888.
A fachada de aparência simples, ainda conserva um traço grandioso, resplandecendo do alto dos seus cinco andares uma aura orgulhosa de quem conserva memórias do passado.
Decido entrar. Transponho a porta de vidro da antecâmara, um sinal dos tempos que se justifica devido à presença do ar condicionado. Avanço dois passos e reparo no chão de mármore cinzento aos quadrados com rebordos de mármore branco. Um toque “old fashion” que conserva o glamour do passado.
No centro do átrio sobressai a mesa de madeira escura, mogno desconfio eu, que assenta em três pés trabalhados, com dedinhos e tudo. O tampo de vidro realça-lhe o brilho e faz com que se destaque mais ainda a jarra de cristal com flores.
As paredes pintadas de amarelo meio esbatido ou o tecto falso com as luzes incrustadas denunciam a modernidade dos tempos. Já não estou na época em que o velho ascensor funcionava. A porta de ferro verde acinzentado esconde uma gaiola de madeira com a respectiva porta em fole. Para os andares superiores ainda viajam pelo poço as duas vigas de aço que serviam de apoio e calha. Não foram arrancadas.
Imagino as histórias antigas que se passaram, os cochichos sussurrados e as pessoas que nele viajaram, como as senhoras da alta sociedade trajadas com os seus vestidos espartilhados na cintura e de balão armado nas ancas, com chapéus de abas, retratando o mais fielmente possível a Belle Époque. Os cavalheiros, distintos, envergando fraques e altas cartolas, fumando os seus charutos, descendo para jantar. Tempos áureos do antigamente mas que com alguma imaginação voltam à nossa memória.
Reparo agora no balcão de mármore da recepção, com uma placa dourada pendurada do tecto que diz apenas “recepção”. É impossível enganar-me. Trato dos procedimentos burocráticos e já com a chave na mão subo ao meu quarto.
A avaliar pela altura do pé direito, elevadíssimo, pensava que os quartos fossem maiores, ainda que tenham espaço suficiente para me movimentar à vontade. Surpreendi-me sim foi com a casa de banho, ou melhor, o quarto de banho. Louças antigas, mármore no chão e uma área quase idêntica à do quarto.
Saio para jantar e apenas regresso para visitar o vale dos lençóis.
N'Dalo Rocha 2003-11-25