Em Portugal ainda há lugares onde a palavra descansar significa silêncio. O Zêzere parece infinito, um lago gigante rodeado por serras, pinheiros e eucaliptos e uma série de estradas e caminhos que atravessam aldeias e vales, contornando a imensa albufeira de Castelo de Bode. De noite, não é difícil perdermo-nos, mas de manhã, descobre-se a verdadeira beleza do lago, que até custa acreditar que só existe por culpa do homem.
A Estalagem
É verdade que se trata de uma estalagem de quatro estrelas, mas os empregados quase nos estragam com mimos. Se por acaso alugar um quarto no primeiro andar, não se espante se o empregado que lhe fecha a porta do elevador no rés-do-chão, lhe abrir a porta no primeiro andar, cinco segundos depois. Não se trata de nenhum truque de magia, nem tão pouco caça à gorjeta. É apenas a arte de bem servir, nem que para isso tenha que subir as escadas a correr. De facto, um pormenor pouco comum.
Os quartos são funcionais e confortáveis quanto baste. Mas o melhor de tudo é a vista para o lago. Acordar, abrir a janela e ver a neblina a flutuar sobre a água que envolve os montes em redor, como se quisesse adormecê-los. O silêncio é profundo, só quebrado por uma ou outra andorinha que pousa no parapeito da janela.
Em baixo, a ampla sala de estar, com o inevitável bar a um canto, onde se aquece a alma por entre licores e vinhos. No centro, pende do tecto a enorme chaminé da lareira, revestida a cobre. O ambiente intimista, onde a boa conversa é bem vinda, quando nos refastelamos bem numa poltrona ou sofá de pele. Nos dias de chuva, não é difícil passar uma tarde com um jornal na mão e uma manta enrolada nas pernas. Ou então, se não estiver virado para intelectualidades, a ver televisão. Afinal, preguiça nunca fez mal a ninguém. Mas se preferir aproveitar os últimos dias de sol do Outono, é ao ar livre que se está bem. Da esplanada, desfruta-se da melhor vista sobre o Zêzere, que mais parece um lago, tão calmo que está. Sem ondas, dá a sensação de estar estático, ainda que em determinadas horas tenha corrente, criada pelo vento. Depois, se quiser, é descer umas escadas até à piscina ou dar umas raquetadas no campo de ténis em piso sintético. Também há um pequeno ancoradouro onde se pode andar de gaivota ou caiaque. E na Primavera e no Verão, há aulas de ski aquático. Se não for adepto dos desportos de água, a alternativa podem ser os jogos tradicionais, como cartas, snooker ou ping pong. E assim se passa o serão. O restaurante, decorado com dois enormes quadros a óleo e pequenos "abatjours" de parede, é sóbrio mas não austero. E a ementa, com oferta variada entre pratos de peixe e carne.
Castelo de Bode e arredores
Se ficar hospedado mais de dois dias, aproveite para passear pelas estradas e caminhos à volta da albufeira. Vista no mapa, parece ser mais pequena, mas de carro duas horas não chegam para contornar todo o lago.
A pouco mais de 20 km da estalagem está Vila de Rei, uma pequena aldeia simpática, onde vale a pena uma visita ao restaurante da Albergaria Dom Diniz e provar o Bucho ou o Maranho, (rolos de carne com arroz e enchidos), pratos típicos da região. Os empregados, todos de lacinho, são atenciosos e esforçam-se por agradar os clientes. E pagar pouco mais de dois contos por uma refeição com vinho e sobremesa incluídos, até nos arregalam os olhos.
Depois, continue na estrada que vai para a Sertã, mas vire em direcção a Ferreira do Zêzere. É uma estrada de serra, de curva contra curva, mas que durante longos quilómetros vai acompanhando a Albufeira. Uma paisagem bonita para um passeio de fim de tarde.
Outra opção é ir para sul e visitar a barragem de Castelo de Bode. Já tem décadas, mas é a responsável pelo maior lago artificial da Europa, até o Alqueva encher. Por detrás das enormes paredes de betão estão acumulados milhões de metros cúbicos de água, que se estendem ao longo de 60 km2 de albufeira.
De cima do muro, a altura provoca vertigens. Até lá baixo são mais de 120 metros quase a pique, num colosso de cimento que desce até às profundezas do vale. A engenharia surpreende e uma obra tão grotesca e imponente, acaba por ter a sua estética. Do lado da água, a albufeira também é muito funda naquela zona, o que parece não intimidar nadadores mais arrojados que atravessam de uma margem para a outra de bruços. Enfim, feitos heróicos pouco recomendáveis para quem pretende apenas um fim-de-semana tranquilo.
N'Dalo Rocha 2001-11-21