Apesar de o personagem principal desta história ser um edifício construído nos anos 1970 segundo uma linha criativa que veio romper em absoluto com o status quo de então, esta é, sobretudo, uma história de pessoas - e de como as suas vidas se alteraram por causa de um Edifício de Interesse Público, assim classificado recentemente pelo IPPAR.
Era uma vez Podemos dizer que tudo começou na década de 1950, quando o arquitecto e intelectual Manuel Tainha, nascido em Paço de Arcos em 1922, projectou um edifício destinado a alojamento que, dissonando das linhas mais típicas da época, pretendia fundir-se na paisagem beirã que o viria a acolher, absorvendo da ruralidade os seus elementos estruturantes. O projecto ficou uns bons anos "na gaveta", tal foi a estranheza que causou. Mas em 1971 a obra concretizou-se. Nascia, finalmente, a Pousada de Santa Bárbara, em Oliveira do Hospital, vindo juntar-se à Casa de Chá de Siza Vieira, em Leça da Palmeira, na categoria de obras arquitectónicas mais importantes do séc. XX, segundo a Ordem dos Arquitectos. Resta salientar que todos os pormenores, exteriores e interiores, foram cuidadosamente pensados pelo Mestre Tainha, que desenhou o mobiliário, com a ajuda do Arq. Fernando Bagulho, e "encomendou" o jardim ao arquitecto paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, bem como tapeçarias para paredes específicas a Abel Manta e esculturas exteriores a Fernando Conduto.
Vidas cruzadas Na década seguinte, enquanto o Arq. Tainha prosseguia com a sua brilhante carreira, a Pousada de Santa Bárbara foi o local escolhido para a celebração do casamento de Maria João e Alberto Pina Cabral, por se situar a "meio caminho" entre a Covilhã, terra natal da noiva, e Coimbra, a do noivo. Na altura o casal estava longe de suspeitar que, anos mais tarde, Alberto viria a ser convidado para director daquela mesma Pousada, o que, já de si, foi uma grande coincidência. Foi já na viragem do século que a Enatur decidiu encerrar Santa Bárbara e abrir uma nova Pousada ali perto, no Convento do Desagravo. Pina Cabral comandou ambas as operações, até que a entrada do Grupo Pestana na equação abriu-lhe caminho a um cenário totalmente imprevisto: a possibilidade de comprar a já ex-Pousada. Mãos à obra, e eis como nasce, em 2004, a Estalagem de Santa Bárbara, restituindo ao público o usufruto de um marco da história da arquitectura portuguesa.
Ana Marta Ramos 2006-03-08