Arte ao encontro das pessoas
Para além de ser o transporte público mais rápido de Lisboa, o metropolitano acumula também o título de “galeria de exposição permanente de arte contemporânea”. Quotidianamente, um mar de gente desagua nas 42 estações da rede. Muitos nem se apercebem do que aqui vai. Outros sim, e só não chegam a desejar que o comboio se atrase porque por aqui passam duas vezes ao dia. Porém, ele há sempre um olhar diferente, um pormenor que não se tinha visto antes...
Nas Picoas, a homenagem é às mulheres da capital. As figuras típicas de Lisboa antiga, como as vendedoras de canastra à cabeça, misturam-se com a heráldica da cidade. Martins Correia, o artista plástico convidado, criou igualmente a estátua em bronze de Pomona, a deusa grega dos frutos e da abundância. Mas uma parte do destaque vai direitinho ao acesso da pela Rua Andrade Corvo. Inserida num programa de intercâmbio cultural entre redes de metropolitano, Lisboa recebeu da tradição de Paris, uma peça de mobiliário urbano em Arte Nova de Hector Guimard.
De igual forma os nossos artistas têm o seu nome espalhado em estações de todo o mundo. Tóquio, Sidney, Moscovo, Paris e o metrô de São Paulo são apenas alguns exemplos de paragens distantes com arte em português.
Na estação de metro do Jardim Zoológico andam animais à solta e até plantas já crescem por lá. Foi Júlio Resende o responsável por tamanha irreverência, o que lhe valeu dois anos passados na Fábrica de Cerâmica Viúva de Lamego a pintar pela própria mão os azulejos que hoje vemos e que cobrem chão e tecto.
No Campo Grande, a primeira estação construída em viaduto, Eduardo Nery aproveitou-se da quadrícula do azulejo e desconstruíu as “figuras de convite” frequentes à entrada dos grandes edifícios de Setecentos. Uma outra forma centenária de dar as boas-vindas. Tradição contemporânea à portuguesa.
Quatro nomes, quatro vultos
Atento aos efeitos negativos de um ambiente subterrâneo, o Metropolitano mostrou-se interessado em minimizá-los. Corria a década de 80 quando quatro artistas plásticos de renome foram chamados a intervir nalgumas das novas estações que estavam a surgir.
Júlio Pomar deixou o traço no Alto dos Moinhos com a representação de grandes vultos das artes portuguesas. Camões, Bocage, Pessoa e Almada Negreiros são símbolos das letras transpostos para o azulejo em jeito de graffiti. Sabendo de antemão da forma espontânea como os riscos e rabiscos surgem em espaços públicos, Pomar antecipou-se deixando o seu cunho gravado no azulejo.
Das Laranjeiras ocupou-se Sá Nogueira. Recorrendo à fotografia de laranjas e à serigrafia, processos de fabrico em série, o artista plástico criou arte nos azulejos da Fábrica Rugo.
Decora o Colégio Militar Cargaleiro. Quis o pintor e ceramista passar o ambiente dos “corredores azuis” de Portugal. Uma presença na memória colectiva por serem frequentes nos edifícios públicos como escolas, hospitais e instituições instaladas em antigos conventos e palácios onde a azulejaria tinha presença constante. Ninguém fica indiferente a esta estação.
Paula Oliveira Silva 2004-04-27