São sete horas da manhã de um sábado de Primavera. A cidade do Porto nem sonha em acordar, a não ser por um brilhozinho a oeste que adivinha um dia de sol. Cá fora o carro espera sem saber a missão que lhe reservamos para este fim-de-semana. Ainda dentro de casa temos tudo: lanche, mapa com ziguezague assinalado a verde florescente, máquina fotográfica, óculos de sol. Em nós a ideia de que iremos recuar algumas décadas na História, mergulhando num tempo em que éramos crianças e os nossos avós nos levavam a Lisboa ver a Torre de Belém e comer pasteis de nata.
Atravessamos a cidade sem encontrar grande trânsito: a ponte de D. Luís I protege o rio Douro, deixando adivinhar o que para lá dele se encontra. Estranhamos a Avenida da República, em Gaia, sem carros mas afinal é Sábado e pouco passa das sete. Depois de um trecho de poucos quilómetros pela VCI, cá está ela, radiante na sua posição, sempre em obras e confundindo-se com o IC2. Só conseguimos apanhar a Estrada Nacional nº1 ao virar para Espinho, e a partir daí nunca mais a perdemos embora, de facto, ela se confunda muito com o IC2 e só lá para o sul a encontrássemos na sua versão mais pura. Aí começa uma viagem de oito horas até chegar à capital. A tentação da auto-estrada é muita, afinal a A1 punha-nos em Lisboa em menos de três horas. Mas as emoções que nos vai proporcionar uma viagem nesta velha estrada vão ser muitas. Será que estão no sítio os mesmos restaurantes, as vendas na beira da estrada, os monumentos que nos faziam ficar com o nariz colado ao vidro do carro? Espinho, Esmoriz, Ovar. Vai um Pão de Ló? A especialidade de Ovar é um Pão de Ló recheado de doces de ovos. Fazemos a primeira paragem e na mala colocamos um enorme pacote que diz «Pão de Ló de Ovar». Está frio, já passou uma hora e por vezes a EN1 parece ainda uma auto-estrada, uma vez que as obras transformaram-na, até perto da Feira, numa estrada com dois sentidos separados por rails.
Mas eis que se acabam os rails e começam os dois sentidos apertados que nos levam até perto de Oliveira de Azeméis. E se pensávamos que já estávamos «apertados», a partir daí é que a EN1 ganha o seu aspecto inicial e se transforma mesmo numa estrada secundária, que passa pelo centro das cidades, cheia de coragem. Estamos perto de Aveiro e já passa das nove e meia da manhã. Aveiro fica ainda a cerca de 25 km do traçado da EN1 mas os ovos moles chegam até ela. Nesta zona, vários cafés ostentam aquelas caixinhas com os ovos moles em forma de concha, barquinho, pipa, entre outras. Perto de Águeda comprámos uma dessas caixinhas, com um sortido de doces tradicionais. A vantagem da EN1 sobre a auto-estrada é que se pode sair e entrar sem pagar. Se vemos uma seta com a indicação de grutas, podemos fazer um desvio e ver o que acontece. Podemos observar a paisagem sempre diferente, os rostos e as expressões dos habitantes a mudar à medida que avançamos para Sul e o sol vai abrindo. Foi o que fizemos perto de Anadia, quando resolvemos ver como estavam as termas da Cúria. É sempre um espanto percorrer a alameda de árvores desta localidade e chegar a alguns dos mais belos hotéis do país. Vale a pena. Dizem que passar pela Mealhada e não comer leitão é como ir a Roma e não ver o Papa. Mas não fizemos questão de experimentar a iguaria até porque nem era hora do almoço. Mas há quem faça desvios de quilómetros para encontrar alguns dos restaurantes da Mealhada, mesmo à face da EN1 e provar uma sandes de leitão acompanhada de um prato de grão de bico e um copo de água. Sim, porque a EN1 tem muitas curvas e camiões, capazes de se transformar em monstros se quisermos fazer acompanhar a sandes de leitão por uns copos de vinho. Fica para outra altura...
Álvaro Cúria 2003-05-13