Emoções azuis

A abertura do paraquedas trava subitamente a queda a mais de 200 km hora. De repente deixa de se ouvir o barulho do motor do avião e é o silêncio profundo. Com o céu ali, azul, lindo. É por isto que os pássaros cantam.

O Salto

Três Três Um, Três Três Dois, Três Três Três, Três Três Quatro. É a chamada contagem do paraquedista, feita imediatamente a seguir ao momento do salto do avião. Depois desta faz-se uma rápida verificação de segurança. Tudo em ordem, pega-se nos manobradores do paraquedas e começa-se a voar.

Não há ruídos. O silêncio é absoluto. O espaço enorme. Depois da emoção do salto e já com o paraquedas aberto sentimo-nos tão bem connosco próprios e tão heróis por estar ali no ar, que só nos apetece dizer disparates do género “I’m the King of the world”.

A seguir à descarga de adrenalina sentimos uma enorme sensação de leveza no corpo, uma espécie de nova descarga mas agora de calma e tranquilidade. Parece que flutuamos. A sensação de peso e de stress acumulado até à altura do salto desapareceu por completo.

-“ Número UM? Número UM? Grande Salto! Número UM vamos fazer uma volta pela direita”.

É o som do rádio que nos faz voltar à realidade, mas não à terra. Lá em baixo o Raúl Plácido, um dos nossos instrutores, dá-nos todas as indicações para chegarmos cá abaixo em segurança e, ajuda-nos a fazer uma aterragem em condições. É uma espécie de controlador de tráfego aéreo e somos nós o avião e, continua “É isso mesmo, outra volta pela esquerda”; Puxamos o manobrador esquerdo e imediatamente nos sentimos a virar à esquerda descendo suavemente. É como se estivéssemos a brincar com papagaios. “É tudo isso número um. É tudo isso”; continua em tom de incentivo.
“Temos paraquedista!”.

Ao mesmo tempo que descemos, identificamos no solo o local de aterragem, um círculo marcado no chão e, o ponto inicial, zona um pouco antes do alvo, em que deveremos estar mais ou menos, a 1000 pés de altitude. Ou seja, a cerca de 300 metros de altura. Cada pé equivale a sensivelmente 30 centímetros.

É aqui o princípio das manobras de aterragem. “- Número Um ainda estás muito alto. Vamos fazer duas voltas pela direita para perder altitude”. Duas voltas depois. “Isso mesmo. Mantêm-te nessa direcção e deixa voar… deixa voar…”. Aos 500 pés já é tempo de travar a metade. Fácil, basta puxar os manobradores até à altura dos ombros. “Número Um vira 90 graus à esquerda! Isso. Novamente noventa graus à esquerda – Agora os manobradores em cima! Tudo em cima. Isso”.

A sensivelmente a três ou quatro metros de altura é dada nova ordem “, TRAVA! TRAVA! MANOBRADORES EM BAIXO, TUDO EM BAIXO” repete agora energicamente o instrutor. E pronto tocamos no chão. Passaram cerca de seis, sete minutos desde que saltamos do avião. O impacto no chão não é forte, imagine-se que salta de cima de uma cadeira. Se viermos depressa ou tivermos travado tarde, dois ou três passos em corrida ajudam a manter o equilíbrio e a não cair. É que a aterragem não é vertical e sim a cerca de 45 graus ao solo.

Ao tocarmos no chão mais uma vez nos enchemos de sensações e emoções, uma mistura de alegria, de poder, de descontracção de liberdade e de calma. Para além de um grande alívio. É um momento muito único e muito especial. Há quem diga que nos conhecemos melhor a nós próprios. É sem dúvida uma emoção muito forte e raras vezes na vida experimentaremos algo parecido.


A teoria do salto

O ponto de encontro era o café próximo da base. Às 9 horas lá estávamos nós, os candidatos a paraquedistas. O Raúl Plácido, responsável da Escola de Paraquedismo Blue Emotions, estava visivelmente bem disposto. Pois claro, era dia de saltar. Imediatamente põe toda a gente à vontade com a sua descontracção. Reunido o grupo, é altura de entrarmos na base aérea de Tancos e começar a instrução teórica do curso de paraquedismo de abertura automática.

Apresentada sumariamente a Blue Emotions, passa-se à necessária instrução teórica. É explicado o funcionamento do paraquedas e os seus sistemas de segurança. Um a um, todos os alunos treinam num arnês suspenso ao tecto com elásticos, os procedimentos de segurança e verificação do material. E com isto passa-se a manhã.

A largada

O último a saltar é o primeiro a entrar no avião. Entrega a tira extractora ao piloto que engancha num tubo colocado na parte dianteira do avião. Sucessivamente vão entrando os restantes alunos, quatro de cada vez. Nº 4, Nº 3, Nº 2 e Nº 1. É importante não esquecer os números pois é com estes mesmos que nos vão dar instruções via rádio. Falta ainda um dos instrutores, aquele que vai ter as funções de largador, o homem que define a zona de largada consoante o vento e dá a ordem para saltar. Lá em cima quem manda é ele.

Todos instalados é altura do Cessna se fazer à pista e descolar. Inicia-se a subida até aos 4000 pés (1200 metros) altura da largada. Enquanto o avião ganha altitude, o largador, António Lopes, aproveita mais uma vez para lembrar todos os procedimentos. Experimentado paraquedista com mais de … 4000 saltos, chefe de esquadrilha dos falcões negros, equipa de demonstrações da força aérea e várias vezes campeão nacional de precisão de aterragem. Estamos em boas mãos. Aprendemos com os melhores.

Verifica-se os altímetros quase do tamanho dos despertadores antigos. Mais ou menos 10 minutos depois estamos na altitude necessária. Por gestos o largador vai dando instruções ao piloto para colocar o avião na posição ideal de largada. Satisfeito com a zona, o largador grita “Corta”. O piloto reduz a aceleração. Vira-se para o primeiro a saltar, o número um, e faz-lhe sinal para se colocar em posição. Esta é a parte mais difícil. Estar em posição é sentarmo-nos na borda do avião já com o corpo meio de fora.
“SALTA!” grita o largador.

Tomás Parreiro 2002-10-29

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