Um eléctrico pode ser muita coisa. Um meio de transporte, uma diversão para os mais novos que andam à pendura ou um símbolo de Lisboa bairrista para os turistas. Pode ser, e é. É também um monumento, mas não como os outros, imóveis e frios como a pedra de que são feitos. Estes eléctricos, ainda que sejam anteriores à Segunda Guerra Mundial, mexem-se e levam-nos a conhecer Lisboa. No exterior sobressai o amarelo vivo, adjectivo que faz justiça à sua condição. Por dentro é outro encanto. Todo revestido a madeira, quase que se confunde com o interior de um navio.
Os Putos
A primeira paragem (ou última, depende da perspectiva) é no Martim Moniz, junto à igreja. Sobem-se os primeiros quarteirões da Avenida Almirante Reis para logo de seguida cortarmos à direita. A avenida que já foi a coqueluche do comércio da capital nas décadas de 60 e 70, tem hoje menos lojas, mas muitos prédios antigos e restaurados, revestidos a azulejos que fizeram furor outrora. Pode não ser dos melhores bilhetes postais, mas os alfacinhas já se habituaram a esta aparência e se algum estrangeiro reclamar, pode-se sempre responder que é very tipical.
A viagem continua e começamos a entrar nos bairros tradicionais de Lisboa, como a Graça, com ruas estreitas e sinuosas onde mal cabem dois carros. Por isso, pode acontecer ter de se esperar que os peões desçam e subam, ou que o senhor automobilista retire o carro da linha. Pára o eléctrico e atrás dele toda a rua. Os passeios também se ressentem com a falta de espaço e por pouco que o eléctrico não toca numa ou noutra varanda.
Há quem suba a rua e há também quem a desça, e no meio de tanta correria ainda há tempo de avisar o amigo que vai à pendura no degrau da porta de trás do eléctrico. “Eh pá, a tua mãe anda à tua procura!” “Onde?” “Lá p’ra baixo. Sei lá”. Nem um herói resiste ao chamamento (mais ou menos pacífico) da progenitora, e num pulo, o jovem desce do amarelinho terminando assim a viagem ilegal. Os condutores já nem ligam. Foi com certeza numa situação parecida a esta que Carlos do Carmo se inspirou para cantar “Os Putos”.
Paula Oliveira Silva 2002-08-06