As transfusões são procedimentos clínicos sobre os quais certamente já terás ouvido falar. Provavelmente, estás neste momento a associar ao termo a expressão “sanguíneas”, uma vez que são estas as transfusões mais comuns, mais simples e, sobretudo, menos assustadoras. Mas não é só de sangue que os nossos hospitais precisam em quantidade. A medula óssea está no topo da lista das necessidades sentidas pelos serviços clínicos do nosso país (e dos outros países, também). Calma, não te assustes. Vamos explicar-te pormenorizadamente de que se trata este tecido orgânico, para que serve e como se processam estas transfusões, e daqui a algumas linhas já terás percebido que, neste caso, o senso comum não corresponde exactamente à realidade. A medula óssea tem uma consistência mole e preenche o interior e as cavidades dos ossos. A sua importância reside no facto de alojar as células estaminais, que estão em constante renovação - também chamadas de progenitoras porque têm a capacidade de se “transformarem” em qualquer célula do sangue periférico. Imagina bem o potencial que isto representa! Existem determinadas doenças, como a leucemia, que inibem a produção destas células prodigiosas, criando desequilíbrios no organismo que podem chegar a ser fatais.
É aqui que tu entras. Tu e as restantes 22 mil pessoas que se inscreveram no Registo Português de Dadores de Medula Óssea. Bem, na realidade são muitas mais, porque este número refere-se à contagem efectuada no final de 2003. Mas não são ainda suficientes, porque aqui a questão da compatibilidade é muito mais complicada do que no caso do sangue.
A pesquisa de um dador compatível começa pelos irmãos do doente, sendo que um em cada quatro casos fica resolvido por aqui. Quanto aos restantes, a probabilidade de encontrarem um dador é de um para dez mil! Sensibilizado? Passemos à acção.
É muito simples e, ao contrário do que possas pensar, não custa nada. Mas isto já é pôr a carroça à frente dos bois porque, numa primeira fase, a única coisa que te é pedida é que, caso tenhas entre 18 e 45 anos e sejas saudável, preenchas um questionário e faças uma simples análise ao sangue. Tornas-te, assim, membro oficial do registo português e, por inerência, do registo internacional ao qual este se encontra associado, que conta com mais de 8 milhões de dadores. Pode até acontecer que nunca venhas a ser chamado. Mas se, porventura, os teus dados algum dia levantarem a hipótese de compatibilidade com alguém, então aí começa a fase dois: mais algumas análises e, por fim, a recolha de medula óssea, que pode ser feita através de uma colheita normal de sangue no braço, apenas um pouco mais demorada do que a recolha para análise que certamente já fizeste.
Existem outros sistemas de recolha, todos completamente indolores e sem quaisquer efeitos secundários. Para recolheres essas informações e aprofundares um pouco mais o assunto, visita o site do Centro de Histocompatibilidade do Sul, em www.chsul.pt, fala com familiares e consulta o teu médico de família. Verás como isto não é nenhum bicho de sete cabeças. É um gesto mínimo, comparado com os resultados que pode originar. Já imaginaste se, um dia, com apenas algumas recolhas de sangue, tu salvares uma vida humana? Pensa nisso. E age.
Ana Marta Ramos 2004-05-18