O passeio começa de jipe, na vila de Campo do Gerês. Passados segundos surge a famosa Barragem do Lindoso, onde o rio Homem afogou há anos a aldeia de Vilarinho das Furnas que aparece de vez em quando embora o mais certo seja encontrá-la sempre debaixo de água. Contudo, quando a água desce avisam-nos que o espectáculo é assustador: uma aldeia abandonada surge com as suas casas destruidas, as ruas por onde não passam mais pessoas... O rio inundou as casas mas não terá tirado àquela aldeia a sua alma, as histórias que lá se passaram e que parecem querer voltar à tona sempre que o Homem desce um pouco. Adiante, a Mata de Albergaria. Para se entrar neste refúgio de fauna e flora há-que ser identificado: o carro só pode permanecer vinte minutos na mata, evitando assim que os turistas parem para incomodar as corças ou o lobo. E tudo é um suceder de cachoeiras, umas atrás das outras, furando rochas e delineando pedras até passarem mesmo por baixo do jipe e se perderem na mata. Ouve-se pássaros que não conhecermos, ao longe a águia imperial faz o seu desvio pelo Gerês, vinda de Espanha e a víbora seoane, espécie que apenas se encontra nesta mata, faz com que os aventureiros da Equicampo tenham que andar de galochas. O seu veneno torna-a a única cobra portuguesa cuja picada é letal e por isso é de evitar encontrar a formosa senhora das pupilas verticais... Mas até à data nenhum aventureiro encarou a dita cuja...
Mais à frente uma ponte de madeira que cede passagem a uma série de cascatas que dão vontade de subir. Outra das actividades da Equicampo é a subida do rio a pé, enfrentando quedas de água e troços em que a aventura supera as expectativas. Originais são os marcos miliários presentes um pouco por toda a parte da mata. Estes são uma das primeiras formas de jornalismo, já dos antepassados romanos. Trata-se de colunas de pedra com inscrições em latim colocadas naquela que era a antiga estrada para Roma. Normalmente dizem respeito à passagem do imperador por aquelas bandas ou de outro feito qualquer que mereceu um sinal eterno. Não somos Júlio César nem Marco António mas por lá passámos, deixando para trás aquela que é uma das mais mais antigas manifestações da vontade do homem em transmitir um acontecimento aos que não o puderam presenciar. E assim de tudo tem esta mata: a água abunda mexendo em todos com as suas descidas; sabemos que estamos rodeados de animais portugueses que só ali se encontram e de vez em quando a marca do homem aparece entre a vegetação densa, que nos arranha os braços.
Álvaro Cúria 2002-09-03