De Seia à Lousã

Atravessar o coração da Beira de carro, da Serra da Estrela à Lousã, por estradas sinuosas de uma beleza invulgar, descobrir aldeias quase esquecidas nas brumas de nevoeiro. Enfim, visitar o país real.

Serra da Estrela

Dizem que Portugal é pequeno, mas na serra não é bem assim, até porque não se pergunta a quantos quilómetros está, mas sim quanto tempo se demora a chegar. E tem a sua lógica, visto que as estradas não permitem velocidades. Começa-se em Seia, e parte-se de preferência de manhã, para aproveitar bem o dia. Segue-se o caminho para Loriga pela N 231. Até lá, ainda se demora um pouco, mas continuamos dentro dos domínios da Serra da Estrela. No caminho, encontram-se ainda rebanhos de cabras e ovelhas com os seus respectivos pastores. Passa-se por velhas pontes e até se avista um açude de betão, que canaliza as águas das lagoas que descem do cume da serra. E, ainda se descobre uma relíquia do passado, como uma via romana. Embora seja uma estrada de serra, tem um óptimo pavimento e está bem sinalizada, o que não exige muito do condutor, permitindo apreciar a paisagem, sempre bonita, por entre pinheiros e carvalhos, alguns deles cobertos de musgo, talvez indicando por onde sopra o vento norte. Mas não se distraia demasiado.

Frequentemente, encontram-se pelo caminho pequenos montes de toros de madeira empilhados junto à berma, provavelmente à espera que alguém os venha recolher. Tem lógica, pois a maioria das casas serranas ainda tem lareira e por cá, quando faz frio, faz mesmo frio.

Andando estrada fora, chegamos à fronteira da Estrela, e a estrada passa a ser a N230 e o piso deixa de ser tão bom, por isso, atenção. Afinal, não há mal que sempre dure nem bem que nunca acabe. Passa-se ao lado da aldeia de Teixeira, até se chegar à bonita aldeia de Vide, por onde um dos afluentes do rio Alva impõe a sua presença. A aldeia encontra-se praticamente toda na margem esquerda, mas há uma bela ponte de pedra em forma de arco que a une à estrada. Pode fazer aqui uma paragem estratégica para recuperar forças, ou conhecer um pouco melhor Vide.

Serra de Açor

À saída de Vide apanha-se a estrada para Piódão. (o número da estrada nem vem indicado no mapa, por isso, o melhor é seguir as placas). Acto contínuo, entra-se na Serra de Açor. A estrada torna-se mais estreita e com curvas fechadas, requerendo maior atenção de quem conduz. A paisagem, embora serrana, é diferente da Estrela. Agora, vemos verdes de várias tonalidades que compõem esta bonita aguarela de cor, à medida que se atravessa uma pequena floresta de pinheiros bravos. Até as bermas das estradas são de um verde vivo, como se algum jardineiro tivesse por ali plantado algo. Possivelmente são assim só porque aqui chove frequentemente, mas não deixa de ser bonito. A vista para o vale é bastante boa e se o tempo permitir, até se aconselha tirar fotografias.

Seguindo em frente, desce-se a serra até o vale e eis que se passa pela aldeia de Châs D’Égua (dificilmente a encontrará no mapa). Típica, com casas de xisto, chama a atenção porque as casas não têm telhas pretas, mas sim enormes lajes de xisto polido que desempenham precisamente a mesma função. Aliás, se seguir com atenção, encontrará ao longo da estrada pequenas construções abandonadas, algumas delas ainda com este tipo de telhas. Um pouco mais à frente, encontra-se Casas Figueiras, onde mesmo as casas mais modernas continuam a empregar este tipo de adorno. Até Piódão demora-se mais uma meia hora por uma estrada que já conheceu melhores dias, mas mesmo assim ainda se faz bem. Ora descendo, ora subindo, quando nos apercebemos, estamos bastante elevados em relação ao vale, onde uma enorme nuvem cobre a aldeia, envolvendo-a numa bruma carismática. Desce-se, atravessa-se o manto misterioso qual Dom Sebastião e levanta-se o véu sobre uma aldeia. Que nos conquista pela sua beleza ímpar. Também toda ela em xisto, com ruas estreitas e inclinadas, pode-se afirmar que esta é uma aldeia de grande encanto. Se quiser, compre já a costumeira lembrança para depois seguir viagem. Agora, é só continuar em direcção a Arganil. Percorre-se quilómetro atrás quilómetro e confirma-se aquilo que já se sabia ao primeiro olhar: uma grandiosa paisagem! Apanha-se a N344 e segue-se para norte, até Coja, passando ao lado da mata da Margaça, área protegida. Aos poucos, a Serra do Açor vai ficando para trás.

N'Dalo Rocha 2002-04-23

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