Contornando a silhueta de Lisboa
Sai-se de Lisboa por volta das 9 horas, consoante as marés. À nossa espera no antigo cais de Alcântara já está o Lusitânia-Belém, um antigo barco baleeiro com mais de 70 anos que veio do Faial com a nobre tarefa de realizar passeios pelo Tejo. À hora marcada, partimos por esse rio fora ao mesmo tempo que conhecemos os nossos companheiros e a tripulação composta pelo mestre José Alves e pelo arrais José Sequeira, gente gentil e sabedora do seu ofício. Para quem vive em Lisboa, vê-la de outro ponto de vista é sempre diferente por isso estranha-se mas depois… entranha-se. Os olhos, esses não param de registar informação captada de todos os lados. A capital há muito que acordou e tudo mexe, até as águas ficaram mais turbulentas, após a passagem de outras embarcações de grande porte. Uma sensação passageira e ainda bem porque senão tal mareação faria com que o cenário fosse fluvial mas o enjoo de alto mar, quase inevitável.
Sempre rente a Lisboa, segue-se com destino a Vila Franca de Xira. Vista do Tejo, a cidade apresenta-se como uma ascensão de telhados antigos que trepam as colinas, encimadas por grandes monumentos. Um é o Castelo de São Jorge, outro o Panteão Nacional e Igreja de Santa Engrácia. Este templo demorou tanto tempo a ser concluído que ainda hoje quando alguma construção demora mais do que se está à espera se costuma dizer que é como a obra da dita santidade.
Na capital, tudo parece ser construído em função do Tejo, onde obviamente as três pontes estão incluídas. A primeira, antiga Salazar e actual 25 de Abril, vê-se logo do cais de embarque mas para avistar a recente Vasco da Gama, há que contornar metade da meia-lua que é a forma de Lisboa no mapa. Por fim, a de Vila Franca de Xira. À vista desarmada já se sente a imensidão destas obras, fruto da engenharia mais moderna para as diferentes alturas em que foram construídas, mas a emoção propriamente dita surge quando se passa por baixo dos seus resistentes tabuleiros bem junto aos seus grossos pilares. O leme ainda é manual mas a sonda, essa claro que é um automática e muito útil já que vai indicando a profundidade a que se navega. Santa Apolónia, Xabregas, outras vidas conhecem-se daqui. Quase a deixar Lisboa para trás, o último fôlego da cidade em termos arquitectónicos e urbanísticos: o Parque das Nações, espaço da antiga Exposição Internacional de 1998 dedicada ao tema dos mares. O novo, por contraste ao antigo e tradicional dos bairros que estiveram na fundação da Olissipo. Definitivamente, uma capital de contrastes e de arquitectura marcante.
Paula Oliveira Silva 2003-03-24