Contemplar o «milhafre ferido na asa»

Estamos no alto, é impossível subir mais. As paredes de granito não nos deixam cair no precipício de 76 metros, mesmo ali. É a cidade do Porto vista da Torre dos Clérigos quem se estende à nossa frente.

Ao fundo a Foz espreita por entre as nuvens. Por entre a neblina espessa, escura e ameaçadora que marca a cidade mesmo em Agosto. Seguimos com o olhar o percurso do rio, que se estreita quando passa a Alfândega e se vê aflito para chegar ao mar por causa da língua de areia da Afurada. Temos o Palácio de Cristal aos nossos pés, uma cúpula que lembra uma nave extra-terrestre rodeada de verde que contrasta com o escuro brilhante das nuvens. Mesmo em baixo o casario de Miragaia e da Ribeira, casas amontoadas, que parece que resultaram de um sopro de um gigante e caíram ali assim: desordenadas, encavalitadas, dando origem a ruas que mal se vêem de tão estreitas que são. Todas elas estão, no entanto, como que voltadas para a Sé Catedral: este é o ponto máximo da cidade e, como se vê, não houve arranha-céus que lhe tirasse a imponência.

Ouve-se o som da cidade, a sua voz feita de carros e gestos humanos. A Avenida dos Aliados destaca-se com a Câmara Municipal à cabeceira e o remoínho de pessoas que se agitam, desde a Rua dos Clérigos, onde viam a última moda ao melhor preço. Os prédios neo-clássicos do grande centro de negócios da zona norte têm formas imponentes, lembram a fisionomia da cidade há alguns séculos. A baixa é um animal pequeno, visto dali. Percebe-se bem a Estação de São Bento e imagina-se as dezenas de turistas que lá estarão admirando os azulejos património mundial.

Álvaro Cúria 2002-10-01

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