Colher para Semear

Maçãs há muitas...

Tomámos de empréstimo o célebre quadro de Magritte (1898-1967), "Isto não é uma maçã", para ilustrar a ideia que passamos a desenvolver; no entanto, para melhor servir o nosso propósito, imaginemos que lhe acrescentámos uma palavra, para obter a inscrição "Isto não é uma maçã qualquer".

Velho mundo novo

Propomos um pequeno exercício: quantos tipos de maçãs conhece? Provavelmente, a reineta, a golden e a starking. E de feijões? Talvez o frade, o vermelho, o manteiga, o branco...

Então e o feijão-patareco, o papo-de-rola, o pedra, o congo, o musgo, o dencante, o canário e o boneco? E as maçãs bravo-de-Esmolfe, malápio-de-Gouveia, camoesa e pardo-lindo? Esta última era a preferida de Eça de Queiroz, e só não se extinguiu por completo graças aos esforços de José Miguel Fonseca e da Associação Colher para Semear - Rede de Portuguesa de Variedades Tradicionais.

Quem semeia ventos...

Em 1984, um estudo levado a cabo pela Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) concluiu que a perda de biodiversidade agrícola ronda os 75% em todo o mundo.

O inimigo público número um está claramente identificado: o negócio das sementes. Seria de imaginar que um produtor de abóboras, por exemplo, utilizasse sementes de cada colheita para plantar a seguinte, não? O pior é que esse produtor iniciou a sua actividade com sementes de uma marca multinacional, à falta de um pequeno comerciante local, como os que havia antigamente, e ao fim de uma ou duas colheitas constatou que as sementes que colhia já haviam perdido a capacidade de germinar. Resultado: teve que voltar a comprar sementes (à mesma marca multinacional, ou a outra em tudo semelhante). Sementes híbridas, ou até geneticamente modificadas, para medrarem em qualquer ponto do planeta. O negócio é milionário, mas a factura pesa cada vez mais nas contas da Mãe Natureza.

Operação de salvamento

José Miguel da Fonseca, de Figueiró dos Vinhos, Graça Ribeiro, de Sesimbra e José Pedro Raposo, de Ferreira do Alentejo, agricultores e guardiões de sementes, são fundadores da Colher para Semear. A partir de um aturado trabalho de investigação, e de muito contacto directo com os pequenos agricultores pelo país afora, foram conquistando sócios e solidificando a Rede Portuguesa de Variedades Tradicionais.

O chícharo (uma leguminosa semelhante ao grão-de-bico) de Alvaiázere, a abóbora-pau da península de Setúbal ou o grão-de-bico preto de Ferreira do Alentejo são apenas algumas das espécies cuja sobrevivência está assegurada (às quais se juntam todas aquelas referidas no início do texto e ainda o milho pata-de-porco, o tomate-de-viagem, um trigo antigo de nome espelta...)

Mas as quantidades ainda não são as desejadas. Que o diga Aimé Barroyer, o conceituado Chefe que dirige a cozinha do luxuoso Valle Flor, restaurante do hotel Pestana Palace, em Lisboa. Cliente habitual da Colher para Semear, nem sempre consegue obter tantos feijões papo-de-rola ou grãos-de-bico pretos quantos necessitaria. A solução passa pela expansão da Rede. Daí que a angariação de novos sócios (investigadores, produtores, guardiões de sementes, etc.) seja uma das prioridades da Associação, a par da formação de agricultores e da informação do público em geral.

Ana Marta Ramos 2007-01-31

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