Em ambiente familiar com as Vicentinas
Pouco passa das cinco e ainda há gente a chegar. Os enormes vidros deste salão de chá disfarçado de loja de utilidades deixam ver à vontade para a rua. Chove que Deus a dá e quem passa tenta abrigar-se como pode.
Igual sorte não padecemos nós, já que aqui onde estamos, no salão de chá das Vicentinas, está quentinho e nem é preciso dar uso à enorme lareira que ocupa uma parede.
O ambiente é acolhedor. Paredes muito brancas e irregulares, tecto de madeira escuro e pavimento de tijoleira. Tudo decorado a preceito, até porque se aproxima o Natal.
Senhoras bebem o seu chá e provam os bolos caseiros enquanto conversam sobre a vida que levam. Ali tão perto de São Bento, é frequente tomar-se chá tendo por vizinho da mesa ao lado, o senhor ilustre deputado da Nação. Mas não são os únicos clientes.
Gente nova, casais de namorados e amigos ou então estudantes vêem nesta casa, um autêntico abrigo de tranquilidade e de boa pastelaria. Igual sabor só mesmo os bolos da avózinha. Lancha-se e conversa-se um pouco ou então estuda-se e neste caso não é raro ver-se papéis espalhados por cima das mesas.
O espaço? Nem é grande nem é pequeno. Digamos que tem o tamanho certo para aquilo que se pretende. E acima de tudo não se ouve aquele barulho ensurdecedor de um café apinhado de gente.
Mas vamos ao que de mais popular se pode provar: os chás e os scones. Dizem que os últimos são os melhores de Lisboa e arredores. Neste caso, é preciso ser-se como São Tomé: ver para crer, ou dito de outra forma, que neste caso os olhos não comem: provar para acreditar.
Das tisanas que aqui são servidas, faça-se conta com as mais conhecidas: lúcia-lima, jasmim, preto, verde, inglês e mais alguns que as senhoras se forem lembrando aquando do pedido. Esqueçam-se as ementas por aqui que os contactos nesta casa são por via da fala.
As senhoras que servem, todas com idade para serem avós, têm o cuidado de dispensarem algum tempo à conversa com curiosos como nós que querem sempre saber um pouco mais sobre a casa. Quem já cá trabalha há tanto tempo, só pode mesmo ter histórias engraçadas para contar.
Vir a um salão destes significa beber chá, pois claro, mas não é para sair a correr. Aliás, este é sobretudo um sítio para se ficar. E já que aqui se está podemos perfeitamente comprar aquela prenda que faltava. Trabalhos de renda feitos à mão, objectos em estanho como molduras, carteiras em pele, são apenas algumas das sugestões que se encontram aqui.
Aberto há cerca de 40 anos, primeiro como loja de costura e bordados, onde até se faziam passagens de modelos e só depois como salão de chá. As avózinhas vinham e comentavam: “Sabia tão bem um chá”. Do querer ao poder foi um passo e por ironia do destino, para trás ficaram os bordados…
Paula Oliveira Silva 2002-12-23