O solar
A varanda, com o corrimão de colunata em pedra, é sem dúvida o lugar de eleição do solar, estendendo-se por cima da elegante escada romântica, com vista para o pátio e parte da aldeia de Vargos. As tonalidades celestes das paredes, em partes revestidas a azulejos, tornam o ambiente descontraído e muito aprazível. E depois, as cadeiras de vime, lançam-nos um convite a ficar por lá, e com um bom livro na mão, tem-se o final de tarde feliz.
Por cá os quatro quartos têm nomes de flores, como Giesta, Madressilva, Rosa e Previnca. Todos têm em comum o pé direito muito alto, tal como o resto da casa, mas os tectos até já foram rebaixados para evitar a sensação de angústia de nos sentirmos pequenos, pois ao que parece as concepções arquitectónicas do século XIX eram diferentes.
Alinhados em fila ao longo da ala renovada, confluem para o longo corredor com chão verde e branco, que parece combinar bem com tudo, fazendo um conjunto simpático. Entre os quartos e a sala dos pequenos almoços, há um corredor comprido, com uma exígua casa de banho de apoio, feita na continuação de uma chaminé que vem do piso debaixo. Esta foi feita pensa-se ainda no século XIX, após algumas obras de beneficiação do imóvel. É curioso verificar como as paredes se inclinam do chão para o tecto, em forma cónica, tornando o espaço por demais “aconchegante”. Por norma, a Casa dos Vargos não serve refeições, mas o verão passado, a proprietária Pilar Tamagnini, decidiu promover um jantar romântico à luz de velas, na varanda. Os hóspedes gostaram da experiência e ao que parece, é para repetir.
Outras histórias
Nesta região e em particular nas antigas propriedades da família, já se produziu bom vinho, a atestar pela medalha pendurada na parede do corredor, onde se pode confirma a menção honrosa num concurso em Philadelfia, no final do século XIX.
Ao atravessar gerações e séculos de história, o solar dos Vargos também foi adquirindo e perdendo direitos, como o do asilo, pois era de lei que os perseguidos políticos ou religiosos, precisavam apenas de alcançar o muro da casa com a mão, para que imediatamente ficasse sob protecção da mesma, ou seja, intocável. Possivelmente, até foi do direito de asilo que nasceu a ideia do coito no jogo da apanhada. Talvez, mas esta era outra forma de tolerar aqueles que divergiam do regime.
Talvez esse direito se justificasse devido à enorme influência dos proprietários junto ao poder central, assim como a sua relação com os populares. Até porque, em relação às aldeia vizinhas, os habitantes de Vargos eram privilegiados, visto que todos aprenderam ler e escrever, graças ao projecto de alfabetização empreendido pelos proprietários do Solar. Se calhar foi por isso que as aldeia vizinhas costumavam dizer que as gentes de Vargos “tinham a mania”, só por saberem ler.
N'Dalo Rocha 2002-04-09