Chegando à casa entramos por um portão estreito que nos conduz ao antigo solar, de cor amarela esbatida pelo verde cru das heras que viajam por toda a superfície. O átrio principal, em forma de u, abriga algumas janelas e uma entrada onde se chega por escadas de pedra. Entrar na Casa do Serdeiredo é entrar num universo muito particular, onde as tábuas do soalho, perfumadas com cera, nos conduzem à varanda principal, onde nos espera um bolo de laranja com cobertura de açúcar. Uma delícia para a nossa vontade de relaxar. Deixámos o stress, a correria e a pressa atrás da porta - nada disto nos pode assolar a memória junto daquela grande janela envidraçada que dá para os montes próximos ao Douro. Verde, cor de rosa, outro verde mais claro do chorão que pinga a um dos cantos e até um bosque. Não conseguimos ver tudo de uma vez só por isso o melhor é que nos demoremos naquela varanda, com uma chávena de chá bem quente nos dias mais frios, em que os vidros ficam embaciados, ou um copo de chá gelado, com os cubos de gelo a tilintar, nos dias em que as janelas abertas deixam entrar a aragem rouca do vale do Douro.
Cá fora, temos muitos recantos onde nos perder. Comecemos pelo pátio da glicínia, cor de rosa impressionante, por cima de nós. Quem nos dera ficar lá sentados durante longas horas, com um livro no colo e a luz do Sol a penetrar entre as flores e as folhas. A luz que nos atinge é muito clara e apetece-nos demorar. Sem pressas... Vamos até ao bosque, onde nos dias mais agitados se promovem acampamentos improvisados... só pela folia de acampar e para dar uma emoção aos mais novos. A relva está alta, densa, faz-nos cócegas nos pés descalços e dá vontade de deitar. Mas não para já: vamos ao outro extremo da casa, para encontrar um famoso tanque onde crescem agriões aos pulos. Dá para puxar alguns e utilizar num preparado muito fácil, com queijo fresco, para barrar no pão. Conselho de quem sabe.
Álvaro Cúria 2003-05-06