Que a vila de Sintra e a serra são lindas, toda a gente sabe. Que existem quintas, palácios e castelos para se visitar, também. Mas descobrir tudo isto de BTT é que pode ser uma originalidade, onde se conjuga esforço físico, natureza e cultura. Passa-se o dia inteiro a pedalar, mas o esforço compensa. Começa-se logo de manhã na Vila de Sintra. Bicicleta pronta a pedalar com cadeado para ninguém roubar, algum agasalho que a serra é fresca e a mochila com o kitt de sobrevivência essencial. Sandes, sumos, chocolates, fruta e água, muita água, pelo menos uma garrafa de 1,5 litros, que até pode não chegar. Depois, basta pedalar e muito, trabalhar coxas e gémeos. Sempre pelo asfalto, segue-se a estrada que vai da Vila ao Palácio da Pena. Os primeiro dois quilómetros são para morrer e não estranhe se a páginas tantas lhe faltar o fôlego. É desmontar e empurra bicicleta à mão. Com a falta de ritmo e por ser de manhã, os músculos ainda não se encontram suficientemente aquecidos e é preciso poupar energia para o resto do dia. Mas caso seja um atleta de primeira linha e com muita força nas pernas, não precisa de desculpas e pode continuar montado no selim.
Curva contra curva, a estrada vai subindo pela serra como se fosse uma cobra que se enrola no corpo da presa. Muitas vezes, ambas as bermas são muradas e nunca é demais o tempo que se perde a apreciar as quintas e palacetes, escondidas pela densa vegetação de pinheiros, carvalhos com troncos cobertos de heras ou muros verdes de tanto musgo.
Muitos destes palacetes têm uma traça arquitectónica peculiar, muito similar ao bom gosto britânico, talvez por Sintra ter sido destino de férias da aristocracia no século XIX. Mas atenção, não se distraia demais, nesta estrada circulam automóveis, com maior intensidade nos feriados e fins-de-semana, assim que o melhor é que pedale sempre pela esquerda.
Passados dois quilómetros de calvário, chega-se a um cruzamento. Para a direita vai-se para o Palácio da Pena e Castelo dos Mouros. Para a esquerda, Peninha e Convento dos Capuchos. O verdadeiro passeio começa agora. A estrada é muito mais plana e assim até se saboreia melhor.
Convento dos Capuchos
Até aos Capuchos são cerca de quatro quilómetros e não custam muito a fazer, ou melhor a pedalar. A estrada é ampla, o asfalto bom para rolar, sem buracos, e a paisagem distrai. Quando se chega, puxa-se do cadeado e a bicicleta fica à entrada, junto à casa do guarda. Recentemente remodelado, este convento cavado na pedra por padres franciscanos tem salas e quartos com dimensões muito reduzidas, como se os homens daquela época fossem liliputianos. A igrejinha, minúscula, com o seu altar embutido na pedra e frescos seiscentistas, não deixa de ser linda e aconchegante. Após a visita e breve descanso é hora de partir para o próximo objectivo. A Peninha.
Santuário da Peninha
Para lá chegar são só mais seis quilómetros, por isso não tenha pressa. A estrada é suave, com ligeiras subidas e descidas, mas há cerca de dois quilómetros de mau piso, embora nesse troço a vista do lado esquerdo, deslumbrante, compense. E mesmo antes de chegar à Peninha, atravessa-se uma pequena mata de Carvalhos onde a luz do sol tem dificuldade em penetrar e por vezes se apanha nevoeiro.
Este é outro convento, que talvez mereça o esforço de lá ir, mais pela magnífica vista sobre toda a serra e o mar, do que propriamente pelo convento em si. Apesar de tudo, ainda se encontra um espólio artístico interessante com azulejos seiscentistas e colunas salomónicas embutidas em mármore.
Sendo um dos ponto mais altos da Serra de Sintra é também um dos mais ventosos. Por vezes, andar junto à porta custa. E pedalar, nem se fala. Nos dias incobertos, abre-se o braços e a sensação é que se consegue agarrar as nuvens. Uma experiência quase mística.
N'Dalo Rocha 2001-11-28