Carreiros e cascata
Ao descer para a cascata do rio Mau, é preciso ter cuidado, pois se a bicicleta embala, torna-se difícil (para não dizer impossível) controlá-la. É preciso travar a fundo até a roda traseira chiar e quando bloqueia, é necessário compensar o equilíbrio dando uma ajuda com o travão da frente.
A paisagem, composta por um vasto eucaliptal com alguns pinheiros à mistura, parece bonita, mas até lá abaixo não há tempo para nos distrairmos com o que nos rodeia. A concentração é absoluta e o equilíbrio no corpo total. Esta descida não é uma downhill (descida de um monte) mas parece. Finalmente, chega-se ao rio Mau, a nossa primeira paragem e, então percebemos que afinal estamos mesmo num lugar aprazível. A vegetação agora é diferente, já não se vêem eucaliptos, mas sim carvalhos, mimosas e castanheiros, que dão uma sombra frondosa e tornam a atmosfera mais húmida. O local convida a uns piqueniques numa clareira junto ao rio, nem que seja pelas mesas de madeira que lá se encontram.
A poucos metros mais acima, está a cascata que divide o rio em dois. Antes da queda de água, o rio é conhecido como Bom, e depois desta, rio Mau, devido aos rápidos e à maior corrente que desagua no Vouga. A cascata é qualquer coisa de extraordinário, e no Verão, com menos corrente, ninguém resiste a um bom banho de cachoeira. Aliás, não foi por acaso que uma famosa marca de cremes francesa filmou aqui um dos comerciais mais famosos nos anos 80, só que então o cenário era no Caribe, mas a cascata em Sever do Vouga. Enfim, coisas da publicidade…
Minas de Volfrâmio
Voltando para trás, sobe-se um pouco, mas só meia subida, e corta-se por uma estrada de terra batida à esquerda. Entre subidas e descidas pouco íngremes, avança-se pelo vale do rio Mau, que parecemos perseguir. Ainda que não pareça, a estrada até tem algum trânsito, carros de pessoas que possuem hortas ou que por ali vivem, como explica um dos guias. A confirmar, após uma curva encontra-se um carro estacionado. É estranho ver estas coisas no meio do matagal, mas afinal, estamos no campo e tudo é possível. Pedalando poucos quilómetros, encontra-se mais outra cascata, um pouco mais pequena, e junto desta, uma ruína do que foi em tempos (talvez) uma nora.
Mais adiante, o rio entra num túnel de 400 metros construído pelo homem para facilitar a actividade mineira. Sensivelmente a meio do túnel, há um poço de onde se pode observar o rio Mau a correr lá em baixo.
Ao que parece, aqui existiram algumas das célebres minas de volfrâmio, material fundamental na Segunda Guerra Mundial para o fabrico de explosivos. Estas minas eram exploradas pelos aliados, ainda que mais a norte, existissem outras minas que vendiam Volfrâmio aos alemães. Uma no cravo, outra na ferradura, assim era a política de Salazar.
As minas cessaram actividades nos anos 70, e no auge da produção, chegaram a empregar perto de um milhar de trabalhadores. Hoje, restam apenas ruínas das instalações, uma atracção para quem gosta de arqueologia industrial. Após uma breve paragem, continua-se a pedalar rio abaixo.
Voltar ao início
Por entre carreiros de terra batida, continuamos a seguir os guias. Nesta fase do percurso, tudo parece correr bem e não se faz muito esforço a pedalar. Mesmo quando nos aparece alguma subida, basta por as mudanças mais leves e, quem tem força nas pernas, até as faz sentado.
O problema é quando se volta para trás e se reencontram as descidas do início onde era preciso travar a fundo. Agora é só preciso voltar a subi-las. Primeiro ganha-se velocidade e ataca-se a subida a toda a força à medida que desesperadamente se muda o carreto para a mudança mais leve. Sol de pouca dura. A força nas pernas parece faltar e a roda traseira derrapa, perdendo tracção. Por fim, sente-se a gravidade a puxar para baixo e é quando desmontamos. Agora é subir a pé, e levar a bicicleta à mão. Mas não é caso para frustrações, pois até os guias desmontam. Não é um final muito glorioso, mas aqui não há heróis, e os únicos que sobem, são os prós do BTT, mas pró é pró.
N'Dalo Rocha 2002-04-23