Bragança

Recentemente, adquiriu notoriedade na Europa e não foi bem por causa das alheiras de Vinhais. Mas continua a ser interessante de conhecer. Venha daí.

Destas escaramuças familiares não me arrisco opinar por desconhecimento directo de causa, mas confesso que estive lá por cima e não resisti a sondar o ambiente.

A reacção dos bragantinos em relação à questão das mães vs. “meninas” é diversa. Há quem goste, quem desgoste e quem seja completamente indiferente à polémica.

Cheguei à cidade, por volta das cinco horas quando o dia começa a morrer. A viagem tinha sido longa, mas segura, graças às melhorias notórias das estradas, principalmente pela nova A23. Não demorei as nove horas da música dos Xutos e Pontapés, e ainda tive tempo de almoçar tranquilamente pelo caminho. No total, não gastei mais de seis horas desde Lisboa.

Entrei em Bragança e após a obrigatória paragem no Turismo, fui até ao centro onde estacionei. Em plena rua do Loreto, com algumas casas de bom granito, encontrei curiosamente um lugar livre mesmo em frente de uma discoteca cujo o logotipo era uma menina sentada numa vassoura. O nome só podia ser um, “A Bruxa”. Fiquei a pensar o que seria aquilo. Após tanto zum zum, senti-me tentado a mudar a linha editorial das reportagens que tinha agendado para aqueles dias, mas nada feito, trabalho é trabalho, conhaque é conhaque.

Deambulei pela cidade e nada vi mais ousado do que homens e mulheres ou estudantes universitárias de gabardina, cachecol ou sobretudo, pois estava frio. Um cenário a anos luz do que se disse e escreveu, da tal nova Meca do sexo da Europa. Lembro-me das viagens que fiz a Amesterdão, Paris ou Antuérpia e não encontrei o mínimo termo de comparação. Aliás, comparativamente com Lisboa, e sem qualquer tipo de desmerecimento, em Bragança ainda são uns meninos no que toca ao business.

Caminhei até à Sé a pensar nos desgraçados que virão atraídos pelo Euro, hordas de adeptos que chegam de carro e entram em Portugal por Trás-os-Montes. Enfim, o tempo o dirá. Poucos minutos depois cheguei à Sé. Entrei pelo portal lateral, o mesmo pelo qual entra toda a gente que visita esta igreja ou vem cá rezar. Lá dentro, uma planta em forma de transepto pouco pronunciado. Para além do adornado altar-mor de talha dourada, é de destacar ainda o imponente janelão datado de 1685. Do tecto, sobressaem ainda três abóbadas com arcos de cruzaria e mísulas. Foi um momento de reflexão e tranquilidade para contemplar um dos monumentos mais significativos da cidade e aproveitar também para aquecer as mãos nos bolsos. Os outros locais de interesse como o castelo ou o museu Abade de Baçal, teriam que ficar para o dia seguinte. Saí para a rua e o frio cortou-me a face. Misturei-me com as pessoas que passavam e brasileiras confesso que não vi nenhuma, apenas um rapaz do Rio de Janeiro, que simpaticamente me deu uma informação da rua que pretendia. Estava com azar, mas pronto, há dias ingratos.

Como tinha cerca de meia hora livre, fui espreitar os novos túneis da avenida Sá Carneiro, a principal artéria da cidade. É lá que estão as lojas mais modernas de Bragança, como os centros de Internet ou lojas de telemóveis.

Adiante, decido explorar uma torre alta, das poucas que há na cidade, com um centro comercial, algo raro por estas bandas. Dei uma olhadela e das poucas lojas que vi, chamou-me a atenção um bar de estudantes, com bandeiras negras, capas e batinas penduradas na parede. Lembrei-me dos meus tempos de Coimbra. O cinema só tinha uma sessão às nove e meia, e por isso, estava fora de hipótese.

À saída, vi uma senhora bonita e vaporosa vestida com um casaco de peles branco que passou por mim de taxi. Seria brasileira ou portuguesa? Não sei, mas como sou educado, nem sequer me atrevi a lá ir perguntar. Era o que mais faltava.

Fui jantar ao Geadas, curiosamente um restaurante na mesma rua do Loreto. A tal discoteca, “A Bruxa” continuava fechada, apesar de ser quarta-feira. “Estranho”, pensei para mim, mas deve ser da hora madrugadora.

Jantei um agradável repasto e no final, não resisti lançar a provocação. O filho do proprietário, estudante universitário foi peremptório.

- Aqui em Bragança só há seis casas de meninas, mas o senhor muito dificilmente dá com elas. Isto é para quem sabe.

Ora aqui estava a explicação porque é que mesmo um jornalista relativamente perspicaz não se deu conta de nada. Será que ando a perder o faro para a notícia?

N'Dalo Rocha 2003-11-11

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