No pequeno Largo da Liberdade, que no mês de Agosto se enche à conta das Festas de Barrancos, o movimento é agora bem menor, sem touros a correr pelas ruas, nem multidões a fugir à frente deles. É assim o resto do ano nesta vila alentejana. Poucas pessoas, na sua maioria idosas, passam o dia junto à porta de um dos dois clubes recreativos, e alguns mais novos que, teimosamente, resistem às oportunidade de Lisboa e do Porto, fazem-lhes companhia. Mas nem por isso Barrancos perde o seu encanto, antes pelo contrário. É esta a altura ideal para se a conhecer a terra.
Embora lá ver isso
É precisamente do largo central, com casas tipicamente andalusas, que se deve partir à descoberta. Estacione-se o carro e siga-se a pé, que é a melhor forma de ficar a conhecer tudo aquilo a que se tem direito. Mas é melhor ter algum cuidado com o lugar de estacionamento escolhido. É que aqui, apesar da manifesta falta de movimentação, a GNR não perdoa e empenha-se na multa.
No Largo da Liberdade encontra-se a Igreja Paroquial de Barrancos. Uma bonita construção do século XVIII, onde vale a pena entrar e perder alguns minutos. Lá dentro, uma bonita pintura da Nossa Senhora do Carmo dá cor a uma igreja constituída por quatro capela laterais. Destaque ainda para um retábulo da Senhora das Dores. Uma das peças mais antigas de todo conjunto.
De volta ao largo, visite-se ainda o edifício da câmara municipal, e depois, continuando a pé, aventure-se pelas pequenas ruelas da vila, sem percurso nem destino marcado. Aprecie-se as casas construídas em taipa e xisto, e tente encontrar o Jardim do Miradouro. Se tiver alguma dificuldade, pode sempre perguntar alguém. Só não se garante é que perceba a resposta, dada quase de certeza em barranquenho, uma mistura de português e castelhano.
É talvez esta uma das maiores riquezas e características absolutas de Barrancos, o facto de possuir um dialecto próprio. Quem não o conhecer pode ficar horas a ouvir que não entende rigorosamente nada. Nem espanhóis nem portugueses, embora, seja mais fácil de perceber para quem chega vindo do lado de lá da fronteira. Neste caso o melhor é ser-se sincero e dizer que não percebeu. Dá mais resultado.
Vamos dar uma volta
Conversas à parte, é altura de voltar ao carro e seguir viagem. O próximo destino é Castelo Noudar, a 13 quilómetros de Barrancos. O caminho não é dos melhores, com vários buracos e estradas de terra batida, mas em compensação uma paisagem de fazer inveja a muito sítio do mundo. Uma mistura de cores, entre giestas e rosmaninho, difícil de explicar. Por isso é melhor ir devagar, até porque não vão faltar motivos para parar. Por exemplo a Pipa, logo a quatro quilómetros, onde se pode ver a nascente que ainda hoje fornece água a toda a população de Barrancos, ou o moinho de água junto à ribeira de Murtigão.
Nuno Maia 2002-01-21