O Bairro Alto está na moda e não há quem negue a evidência. Se és de Lisboa ou se cá vieste recentemente, com certeza que já te deparaste com os cartazes que incitam uma visita “àquele cantinho de Lisboa”. O marketing ajuda muito, mas se não fosse tão especial, este bairro não se aguentaria das pernas durante muito mais tempo. Sofreu um duro golpe com o nascimento das Docas, junto ao Tejo, e mais tarde com a oferta de bares e restaurantes da renovadíssima Expo 98. Não perdeu a sua maneira de ser e apesar disso fortificou-se. A gente que do Bairro saiu, a ele voltou, e agora a família parece estar reunida outra vez. Na verdade se há lugar em Lisboa que seja cosmopolita, será este. Em qualquer guia de referência estrangeiro ou nacional encontras a sugestão de uma visita. Desde o estrangeiro que fica alojado no mais fino cinco estrelas da cidade e se arranja todo muito bem para jantar fora, até ao turista de mochila e chinelo que procura aqui o seu ambiente natural. Acima de tudo, muita diversidade e tolerância.
De produção nacional, não menos frequente é ver a cara conhecida da televisão, seja ela jornalista, política ou de outro ramo qualquer, de copo na mão bem no meio da rua que agora por acaso até está cortada ao trânsito. Como vizinho de parede ou de degrau tem o punk, o rasta man, a hippie e o dread. Não raras vezes sente-se um cheiro a substâncias ilícitas mas isso já faz parte da flora da casa.
Livres dos carros, os becos e ruelas enchem-se ainda mais de gente de todas as idades, formas e feitios. Há pais que aqui chegam com os filhos e depressa se dispersam indo cada um procurar o seu espaço. Dos 18 aos 88. E como o espírito do Bairro é correr as capelinhas todas, não dá mesmo para ficar quieto. Vai-se em busca do melhor som, do ambiente mais cool ou alternativo, da novidade ou da malta do costume...
Toda esta gente espalha-se pelos locais que sejam à sua medida e podem perfeitamente passar um dia inteiro aqui. Dormir inclusive se não fores de cá. A pensão Anjo Azul é das poucas com um aspecto clean e ao mesmo tempo avisa-te logo das suas tendências gay. Mas não é discriminatória. O pequeno-almoço podes tomá-lo na Charcutaria Só Aqui com pão quente a toda a hora ou na Cultura do Chá, aquilo mesmo que o nome indica. Por esta é que não esperavas.
As lojas entretêm durante o dia, existindo algumas que se prolongam noite dentro e outras que só abrem por essa altura. Nas da especialidade escolhes o desenho da tua tatuagem ou experimentas mais um piercing naquele sítio que até agora estavas a agarrar coragem. Esse mesmo. E como o que está a dar é a fusão, aproveita e bebe o teu cafezito na loja onde fazes as tuas compras ou no cybercafé.
Se o teu estilo for alternativo vais encontrar alguma coisa a teu gosto. Um corte de cabelo todo stiling, uma lingerie, uma t-shirt à anos 70, uma jóia de autor, algumas antiguidades ou velharias, o vinil que faltava na colecção e roupa de estilistas consagrados e em segunda mão mas sempre fugindo dos franchisings como o diabo foge da cruz. Encontras de tudo um pouco. Desde sex shops (com utensílios sado-maso) assim como num outro registo, a mercearia biológica.
É que o Bairro Alto de dia não é só para quem lá mora e continua com uma pedalada que até dá gosto.
Paula Oliveira Silva 2003-09-23