Avis, por vários motivos

Porque este silêncio faz falta, a luz é única, a história passa pelas esquinas das ruas cobertas de laranjeiras e é tão raro vir-se aqui.

Avis por todos os motivos, mas sobretudo porque, quando nos pomos a caminho do Alentejo, pensamos nessa planície infinita ou, pelo menos, de fim distante. Neste caso, Avis desmente a regra: fica numa elevação de onde se vêem Fronteira, Alter do Chão, Galveias, Benavila, Monforte, Portalegre, Pavia e Ponte de Sor. E vê-se a Barragem do Maranhão, que não dispenso nos seus caminhos de terra que levam de um monte a uma enseada da albufeira, de uma clareira no meio dos sobreiros a uma praia de Verão ou a um açude de Inverno.

A luz

O mágico de Avis é a sua luz, o brilho ténue da sua luz, a magia da sua luz vista em cada rua, entre as laranjeiras que polvilham as suas colinas e largos como uma memória de coisa antiga, escondendo-se na muralha que vigia todos os caminhos da planície e os ninhos de cegonha que rodeiam Santo António de Alcórrego, o Ervedal ou o caminho de Benavila para Alter.

E o mágico de Avis volta a ser, de repente, e de novo, a sua luz vista das torres da muralha estendendo-se pela planície fora, nas ruas da pequeníssima judiaria transformada em mouraria por conveniência da História, nas ruínas do fantasma do Convento de Calatrava, na presença dessa Ordem de Avis que tem mais lenda do que a inspiração e mais fantasia do que se permite a quem tem a mania de que a História deve ser verdadeira. 

O silêncio

Seja como for, por isso mesmo, Avis é uma ilha no Alentejo. Dirão os mais puristas que se trata do Alto Alentejo, e eu concordo: este Alentejo respira no meio de arvoredos, na estrada que segue para Fronteira ou para Sousel, esconde-se como um bicho invisível na noite, tranquila e abandonada. Amo Avis pelo seu silêncio, além do mais. Pelo seu silêncio intocável.

Pelo seu adro cheio de laranjeiras, pelas suas lojas modestas, pelo seu jardim público ao alto de uma escadaria monumental onde os velho jogam as cartas ou conversam sobre o que calhar, pela sua barbearia onde se misturam jornais e tesouras para o corte demorado do cabelo, pela sua comida quase única, feita de espargos da Primavera, de trufas escondidas como é a lei, de migas de batata e de carpas do Maranhão, de labaças frescas com pão de forno honestíssimo. 

Francisco José Viegas 2001-07-04

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