As mil histórias de Belmonte

A vila que quis ser Aldeia Histórica, mais conhecida como a terra de Pedro Álvares Cabral.

Cabrais e judeus

A serra da Estrela é região que não sendo banhada por mar está ligada por diversas razões a grandes obreiros dos descobrimentos. Pêro da Covilhã é um nome, o Infante D. Henrique cujo primeiro título foi o de Senhor da Covilhã será outro. Mas quem irremediavelmente ficou ligado a Belmonte foi Pedro Álvares Cabral. Aquele bravo senhor que pela primeira vez e numa mesma viagem ancorou em 4 continentes. A saber, África, América, Ásia e Europa.

Prepare-se o visitante para assistir in loco a uma lição da nossa história. O comandante da segunda armada à Índia e que, acidentalmente descobriu o Brasil, nasceu segundo a tradição, neste castelo. O forte, que teve como função primeira, no tão distante século XII, a defesa da antiga linha de fronteira com o Reino de Leão, serviu de residência da família Cabral durante mais de duas centúrias. É torre de vigia para a Cova da Beira, vale fértil em fruta onde os Cabrais detinham terras.

Vizinho da fortaleza é a Igreja de São Tiago. A secura decorativa do templo românico de Trezentos é suavizada com a aplicação de pintura mural e com a presença de uma pietá, escultura de um só bloco de granito da região. Para ver ainda, o anexo Panteão dos Cabrais onde estão depositadas as cinzas do navegador filho da terra.

Para remate, duas pequenas capelas, que por estarem quase sempre fechadas, passam despercebidas. A Novecentista capela do Calvário e a de Santo António mais antiga do século XV e que exibe as armas da família Queirós, Gouveia e Cabral, claro.

A afirmação do Cristianismo em terras de Belmonte, como o atestam os templos de onde acabámos de vir, não esmoreceu a cultura hebraica. Nascida no século XV, a comunidade judaica resistiu às perseguições da Inquisição e reúne-se sem interrupções ao culto até hoje. A sinagoga, templo aberto ao público em 1996 é a face mais visível da fé desta comunidade já que o Museu Judaico ainda não está em funcionamento.

É a menos de um pulo do castelo que encontra o Bairro da Judiaria, uma das zonas mais bonitas da vila, com as casas em granito muito bem preservadas e decoradas com canteiros floridos.

O resto da história

Se há coisa que aflija o viajante é encontrar um lugar cheio de monumentos mas vazio de gente. Em Belmonte, dois são os elementos que se justapõem, o monumental, e o humano. Principalmente junto à zona histórica são os idosos e as crianças que enchem de vida as ruas cujo denominador comum é o granito. Numa dessas casas, modesta e igual a tantas outras, viveu o cantor de intervenção, Zeca Afonso.

Paula Oliveira Silva 2004-09-07

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