As maravilhas da Arrábida

O habitual bom gosto dos monges revela-se no convento sobre a encosta da Arrábida. Capelas, ruas que parecem labirintos e a certeza de que o mediterrâneo também chega aqui.

Depois de uma curva mais sinuosa na estrada que nos leva ao alto do Formosinho, a meio da encosta, abrindo-se a sul com vista para o mar sadino, está uma arquitectura de um Portugal meridional, pequenas casas como que se encostando umas às outras numa organização caótica quase orgânica, dando assim forma ao Conventinho, como também é chamado o Convento da Arrábida, adquirido em 1990 pela Fundação Oriente à casa de Palmela.

Não há construção religiosa que se preze sem uma lenda ou milagre para contar, e a Arrábida e o seu convento não são excepção. Corria então o ano da graça de 1215, reinava Afonso II de Portugal e como todas as lendas, começa por: era uma vez.

Então, vamos lá. Era uma vez um comerciante inglês de nome Haildebrant que vinha de barco com um carregamento de fazendas para mercandear. Consigo trazia uma imagem representando Nossa Senhora com o Menino Jesus nos braços, que teria sido a primeira no reino de Inglaterra. Após a barra de Lisboa ter-se-á levantado uma tempestade, os marinheiros buscaram refúgio dobrando o cabo Espichel, e rezaram à santa que traziam no barco, mas a Senhora já não se encontrava aí. Foi então que na noite uma luz intensa brilhou na encosta da serra, orientando os marinheiros para local seguro. Ao amanhecer aportaram a terra no local onde tinha sido avistada a luz, naquela que é hoje chamada a prainha de Alpertuche, e lá estava, junto ao rochedo, a santa.

Segundo ordens de Haildebrant, as fazendas que transportavam foram distribuídas pelos tripulantes e pelos pobres e com algum dinheiro que trazia mandou erigir nesse local um pequeno templo a que chamaram Ermida da Memória, começavam assim as romagens à divina Nossa Senhora da Arrábida.

Ainda hoje a ermida lá está, mas da sua história até ao século XV, pouco se sabe. Nesta altura pertencia ao 1º duque de Aveiro, D. João de Lencastre, que a ofereceu a Frei Martinho, religioso castelhano da ordem de S. Francisco, que aí se instalou em 1539 conjuntamente com outros três religiosos castelhanos e um português. Com a morte de Frei Martinho em 1547 a espiritualidade destes frades altera-se no sentido de uma maior intelectualidade. São erigidas pequenas capelas e ermidas na serra formando o que é hoje chamado de “Convento Velho”. No princípio do século XVI aí viveu os seus últimos anos Frei Agostinho da Cruz, considerado o poeta da Arrábida. Só em 1662 por ordem do 3º duque de Aveiro é que é iniciado e fica completo o actual conjunto do chamado “Convento Novo” ou Convento da Arrábida.

Lá dentro

São ruas como labirintos, com inúmeras imagens de barro em nichos. Ao chegar temos de passar pela estátua do seu fundador, Frei Martinho, na entrada da capela-mor, e logo no seu interior podemos admirar os retábulos pintados a óleo e uma figura de Cristo no altar. De seguida todo o conjunto de pequenas casas de adobe e taipa caiada. A cozinha, os lavadouros mais abaixo, e acima a biblioteca, o relógio, tudo intervalado por pequenas celas com vista para o mar que serviam de retiro de contemplação para os frades. Numa posição mais elevada está a capela do Bom Jesus, com a cúpula forrada de azulejos do segundo quartel do século XVII, cercada de ciprestes e de um jardim barroco. Tal como é regra nas regiões mediterrânicas, este Convento possui um sistema hidráulico bastante elaborado com um aqueduto e cisterna para aproveitar as pequenas fontes de água que brotam da serra e a preciosa chuva, com que regavam os jardins e o horto.

Em Maio de 1834 era publicada a lei de extinção das Ordens Religiosas. Os frades abandonaram por fim o Convento. São histórias conventuais, memórias dos Conventos da Arrábida.


As maravilhas

A paisagem mediterrânica tem aqui todo o seu explendor. São as cristas de calcário que irrompem de um emaranhado de vegetação sempre verde, que dizem os botânicos ter sido a mais frequente antes das últimas glaciações, onde os arbustos tomam o porte de árvores, sendo as espécies tipicamente dos bosques mediterrânicos, de clima marcado por verões quentes e longos, como o carvalho-português, o sobreiro, a azinheira, o carrasco, a alfarrobeira, o medronheiro, a aroeira, as urzes arbóreas, o rosmaninho, o alecrim e várias espécies herbáceas, que constituem um emaranhado difícil de entrar, como nas matas do Solitário, Coberta e do Vidal, preciosos exemplos de floresta climácica e por isso classificadas de reserva integral. Mas aqui onde a luminosidade é tão intensa que nos faz semicerrar os olhos, o mar toma os tons mais suaves e a serra como que se debruça sobre ele, a cultura também acompanha todo este conjunto natural, são os pescadores com seus barcos e técnicas, a religião, as vinhas, as oliveiras, os prados e os seus pastores.

Molhar os pés

Descendo sempre a estrada em direcção oposta a Setúbal, aterra-se no Portinho da Arrábida. Lá ao fundo, a praia tranquila, às vezes deserta, com o mar a variar de tom ao sabor das luzes e da agitação das árvores. E do lado de cá, passado o museu oceanográfico, o portinho propriamente dito. Ao fim do dia, o cais mais indicado é a varanda dos dois restaurantes. Peixe grelhado, o que estiver mais fresco nesse dia, e chocos fritos, se os houver, a fazer de entrada. Postas as coisas assim, até os monges se haviam de roer de inveja. O que é pecado, mas no caso justifica-se.

Nuno Luzia 2001-05-16

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