Nas ruas de Angra de Heroísmo respira-se História. Mas não é no pretérito que se conjuga a vida desta cidade. As glórias do passado servem de pilares à edificação de um presente dinâmico e empreendedor, voltado para o futuro. As barreiras do tempo esbatem-se em lugares como este, onde as pessoas parecem possuir um secreto domínio sobre a construção da sua identidade.
Retrato urbano
A Rua da Sé é, desde o século XVI, a espinha dorsal desta cidade inscrita no Património da Humanidade pela Unesco. Nem a sua acentuada inclinação demove as pessoas que, a qualquer hora do dia, sobem e descem pelos passeios de largura insuficiente para tanta afluência. A estrada também não se pode queixar de falta de movimento; estamos, de facto, em pleno centro urbano.
Percorremo-la a partir do Alto das Covas, voltando momentaneamente as costas ao mar, lá ao fundo. À esquerda, o edifício majestoso da Escola Primária estende os braços a uma das muitas praças por onde as pessoas se detêm, nos bancos públicas ou nas esplanadas, em busca de algum repouso e de sombra. Sim, porque esta cidade só aplana junto ao mar; de resto, andar a pé por aqui implica o esforço suplementar de vencer alguns declives bastante impressionantes. Por agora, é sempre a descer.
O comércio tomou conta dos rés-do-chão desta rua principal, assim como das outras, suas ramificações: para a nossa direita dirigem-se umas quantas, todas apontadas ao mar. Logo a seguir ao edifício da Sé, seguimos pela Rua da Palha até desembocarmos no Cais da Alfândega. As Portas do Mar prepararam o olhar para o reencontro com o Atlântico, que se estende muito para além do cais.
O regresso ao centro faz-se pela Rua Direita, para passarmos pelo Posto de Turismo e recolhermos todas as informações necessárias a um bom aproveitamento desta visita. Com a mala cheia de mapas e boas dicas, chegamos à Praça Velha, o coração da cidade e receptor das principais vias, bem ao jeito dos cânones do urbanismo renascentista.
Por esta praça já passaram mercados de gado, touradas e até enforcamentos públicos, durante as lutas entre liberais e absolutistas. Hoje em dia, felizmente, serve apenas de átrio ao imponente edifício dos Paços do Concelho, datado de meados do século XIX.
Um brio muito especial
As casas desta cidade parecem todas novinhas em folha, e ainda assim por todo o lado existem pequenas obras de restauro ou retoques nas pinturas exteriores. Intrigados com o facto, procurámos saber junto de algumas pessoas a razão de tamanho zelo e ficámos a saber que se trata de um hábito desta altura do ano. A proximidade das festas das freguesias serve de pretexto para compor o que já nos parecia bastante composto. Fossem todos os proprietários assim...
Passamos, agora, para a exploração do interior da cidade; ou seja, começamos a subir. Neste caso, não estamos com meias medidas: vamos direitos à íngreme Ladeira de S. Francisco, que ladeia a Câmara Municipal. A praça de táxis no princípio da subida ainda nos faz pensar duas vezes, sobretudo porque já pudemos perceber que os taxistas são dos melhores cicerones que se encontram nos Açores.
Ana Marta Ramos 2004-08-17