A ideia com que se fica é que não se consegue sorver Amarante de uma vez só: temos a impressão, consoante as várias alturas do dia e as variações do clima, que a cidade se vai alterando perante os nossos olhos, formando um mosaico de tons que contrastam a sobriedade das construções religiosas com a frescura das águas do rio Tâmega. A história de Amarante está intimamente ligada à religião: a cidade nasce no século XIII quando chega até estas margens um pregador «com fama de santo», que se encanta com as serras e as cores, constrói uma ermida no local e começa a criar as condições necessárias para ali nascer um povoado autónomo. Para isso, começa por construir uma ponte sobre o rio, que juntamente com a fama da sua santidade vai chamando o povo até si. Além disto, um lendário caminho para Santiago de Compostela passaria perto daquela localidade- diz-se que os peregrinos faziam um desvio no seu trajecto para irem testemunhar os feitos do pregador Gonçalo. Por toda a região, vão proliferando os centros religiosos, incentivadores da propagação da cultura e o povoamento, como as monjas de Santa Clara que desenvolveram no seu mosteiro ali perto uma iguaria que ainda hoje é possível de ser encontrada por lá. Tudo leva a que o povoado se desenvolva, as romarias e as festas cresçam, assim como o carácter religioso do local.
Também a aristocracia rural marcou passo por lá, com a procura dos seus perfeitos campos agrícolas. Esta aristocracia culta eleva os mais belos palácios em Amarante, criando as condições necessárias a que se desenvolvesse nesta terra o gosto pela arte e pela cultura que perdura até hoje: recordemos apenas os nomes de Teixeira de Pascoaes, Amadeo de Souza Cardoso ou ainda Agustina Bessa Luís. Todos amarantinos… Isto, sem obviamente esquecermos a natureza quase selvagem da zona, em que se confundem rio e montanha, com as serras do Marão e do Alvão a enquadrar a cidade e a cercarem-na de majestosas paisagens, onde se desenvolvem aldeias humildes e onde a fronteira entre o litoral e o interior nunca foi tão notória. É possível, para os mais aventureiros, partir à descoberta de praias fluviais, açudes, penedos e rochas que ainda guardam as formas primitivas e constituem uma boa alternativa à paisagem monumental da cidade. Mas para quem viaja em busca de cultura, encontra também em Amarante um poiso ideal: é impossível não se ter a visão de um quadro ao olhar o rio e o centro histórico da cidade. Ou pensar no início de um romance, ao contemplar o peso da serra ou os traços dos seus principais monumentos. Para tal tomamos a liberdade de parafrasear Teixeira de Pascoaes, na sua doce melancolia por Amarante: «Vem do Marão, alta serra, / O Luar da minha Terra.»
Álvaro Curia 2003-05-27