Prados, verdes prados. São quilómetros infinitos de planície que vão desaparecer para sempre, afogados por milhões de litros de água. Não é magia, mas há quem lhe chame engenharia, pois afinal o Alqueva vai ser dentro de poucos anos o maior lago artificial da Europa, e se a chuva ajudar, melhor ainda.
Na estrada entre Póvoa de São Miguel e a aldeia da Luz, consegue-se ter uma percepção real do que será a albufeira, principalmente quando se encontra pelo caminho a enorme ponte de betão com uma placa que diz tudo: Albufeira do Alqueva.
Lá em baixo, um pequeno rio rasga a planície ao meio, mas não é o Guadiana. Trata-se da ribeira de Alcarreche, um afluente que vem de Espanha para encontrar o Guadiana ainda antes da barragem, mas nem por isso vai sobreviver ao lago. Se puder, pare o carro (melhor antes ou depois da ponte que o tabuleiro é estreito) e fique a olhar para aquilo tudo, a sentir o silêncio do vale, enquanto pensamos que esta pode ser a última vez que vemos terra firme por aquelas bandas.
Velha Aldeia da Luz
Agora é conhecida como velha aldeia da Luz, mas para os locais continua a ser a Luz. Às cinco da tarde, um grupo de velhos aproveita os últimos raios de sol sentados nos bancos da Praça 25 de Abril. Uma cena sem muito de novo, principalmente no Alentejo. Mas o curioso é que já todos parecem mentalizados a aceitar o destino, pois dentro de três meses mudam de casa.
Ainda que a Luz não seja uma aldeia com algo de fenomenal que a distinga das demais, como é Monsaraz por exemplo, acaba por exercer em nós algum fascínio. Talvez seja por sabermos de antemão que todo aquele pequeno mundo vai desaparecer, tal como a crónica de uma morte anunciada.
Seguindo por uma pequena estrada em terra batida, deixa-se ficar a aldeia para trás, para finalmente chegarmos à beira rio Guadiana. Aí, encontrarmos as primeiras vítimas da barragem. São os velhos moinhos de água que embora estejam inactivos, ainda se conseguem ver bem, pelo menos três. E se a curiosidade for grande, pode mesmo alcançar a pé o primeiro sem se molhar, tão próximo que está da margem. Depois é melhor ficar-se por aí que a corrente puxa e pode ser perigoso ser audaz.
Nova aldeia da Luz
Costuma dizer-se que as aldeias têm tradição e provavelmente grande parte dos habitantes das cidades têm um primo ou avó da terra que visitam nas férias. Mas em Portugal a nova aldeia da Luz é um fenómeno raro, onde de um momento para o outro, a partir do nada, nasce uma povoação, pensada de raiz, com a particularidade de aqui serem as pessoas a levar a história e não as paredes a revelarem marcas do passado.
A nova aldeia da Luz tem casas modernas que imitam a tradicional linha arquitectónica alentejana. A planta da vila é muito ordenada, estilo ortogonal (com ruas e avenidas perpendiculares) e é fácil perceber que foram feitas de encomenda. Numas ruas encontramos casa brancas com faixas azuis, noutras com faixas amarelas e até há casas com faixas castanhas. A maioria das ruas não estão pavimentadas e muitas casas encontram-se em fase de acabamentos com operários por todo o lado que terminam os últimos detalhes. O ambiente é alentejano mas há pormenores que destoam como o design moderno dos novos candeeiros.
N'Dalo Rocha 2002-02-26