É na Estação Fluvial do Cais do Sodré que se apanha o barco para Cacilhas, em Almada. Sessenta cêntimos é o preço da travessia que demora cerca de um quarto de hora. Nisto das panorâmicas, é uma evidência que os lugares junto às janelas são sempre os melhores. Neste caso em concreto para melhor ver a capital afastar-se pouco a pouco de nós.
Almada ribeirinha
Terminou a viagem. Desagua toda a gente que comigo vem no Largo Alfredo Dinis onde vendedoras ambulantes apresentam fruta com muito bom aspecto. Aumentam o volume do pregão mal o barco aporta e assim que a multidão se dispersa, põem a cassete em off.
Diariamente as duas pontes sobre o Tejo despejam milhares e milhares de pessoas nas duas bandas do rio, mas tempos houve que esta era a única forma de chegar até aqui. Aliás, a origem do termo Cacilhas diz isso mesmo. Conta a lenda que há muitos séculos, no actual Largo de Cacilhas, um sem número de burros esperavam por passageiros para passeios por Almada. Era por isso frequente ouvir-se a expressão “Dá cá cilhas” referindo-se à preparação do burro para um novo serviço. Daí a denominação actual do local.
Agora, como animais desses já não os vejo por aqui, que remédio tenho senão prosseguir a pé. Sigo por uma pequena estrada de alcatrão junto ao rio onde, de quando em quando, lá passa um carro. Às vezes não há protecção contra as quedas ao Tejo. É preciso ter cuidado, principalmente com as crianças. Este é o chamado Passeio do Ginjal onde há muitos séculos existiam grandes armazéns de vinho, vinagre e azeite. Alguns destes antigos entrepostos encontram-se num estado de conservação tal que é bom nem falar.
E ainda mora cá gente nestes prédios antigos revestidos a azulejos e com varandas de ferro. Sei-o pela roupa estendida. Se chegar a horas do almoço os restaurantes Atira-te ao Rio e Ponto Final, fazem do peixe a especialidade da casa e convidam-no a uma interrupção no passeio. Em frente existe um “... ancoradouro feito de propósito para trazer grupos de turistas da capital” disse alguém que entretanto passava.
Começa agora a parte mais turística, a zona do Elevador da Boca do Vento, e como tal a mais arranjada. Os passeios em calçada portuguesa, os bancos e a sombra são apelos a uma sesta. Que o diga o rapaz que dormia tão tranquilamente na relva como se estivesse debaixo de telha.
Poucos metros mais à frente vê a Fonte da Pipa, uma obra monumental ainda para os nossos dias se tivermos em conta a altura em que foi construída, em 1736. Ganhou o nome por causa da utilização de pipas de madeira no transporte de água. Mas hoje está seca. As armas reais de D. João V não deixam a obra perder a importância ao longo dos tempos.
Um pouco mais à frente, existe um modesto núcleo museológico de Arqueologia Marinha com pouco onde deter o olhar. A ideia seria interessante se fosse mais bem explorada. Se não procurarmos o Centro de Documentação, em dez minutos se vê tudo, já contanto com alguma leitura de placares.
Paula Oliveira Silva 2004-06-08