Alfama, perfume de Lisboa

Labiríntico, este castiço bairro alfacinha conserva ainda uma áurea especial, carregada de fado, marchas populares, histórias de marinheiros e uma arquitectura única que deslumbra.

O bairro

Não é difícil perder-se no meio de Alfama, este bairro que tem uma geografia única. Desordenado, labiríntico, entrópico. São becos, ruas, ruelas e vielas que se articulam entre si ligados por mais de 50 lances de escadas de calçada que vencem os desníveis da encosta. E é neste sobe e desce que se vai avançado à descoberta de um mundo diferente das avenidas cosmopolitas, dos centros comerciais ou das lojas da moda. É verdade que também por cá se encontra uma ou outra loja de lembranças para turistas, com postais e pequenos bibelôts para oferecer. Mas, no essencial este é um bairro tradicional, daquele que os vizinhos se conhecem e falam de porta a porta ou a janela a janela. Há mercearias típicas, alguns restaurantes da moda, mas também tascas e pátios que no Verão enchem os passeios de mesas e assam as sardinhas na rua.

Andar a pé

Em Alfama só há uma hipótese de conhecer o bairro, e é pé. Esqueça o carro, o eléctrico o autocarro ou outro qualquer meio de transporte. O bairro tem inúmeras entradas, mas para dar uma volta mais completa, o conselho que lhe damos é ir até ao largo das Portas do Sol e descer, ou então, parar no Campo das Cebolas, entrar e subir. Começando pelo mais difícil, isto é, subindo, caminha-se a partir do Largo do Terreiro do Trigo em direcção ao Chafariz de Dentro. Mas antes não nos podemos esquecer de apreciar o magnífico Chafariz de Dentro, que fazia parte da rede de abastecimento de água de Lisboa e era das poucas fontes que nunca secava no Verão. Os marinheiros costumavam abastecer as naus aqui e no Chafariz de Dentro e, quando a água escaceava não era poucas as vezes que surgiam zaragatas mortais por quem desesperava na fila. Quando fraco, o caudal tardava 24 horas a encher um barril de água. Enfim, histórias do século XV, mas já desde essa altura Alfama era Alfama.


Ao lado da Igreja, alguns restaurantes afamados, como o Santo António de Alfama, o Malmequer ou o Baiúca, onde uma norueguesa que se apaixonou pela cultura portuguesa, canta o fado.

Continuando, descobre-se por detrás da igreja um largo onde estão pendurados lençóis, toalhas, calças e camisas das pessoas que vivem à volta e que utilizam o espaço para secar a roupa, ainda que seja em plena via pública. Só que aqui, não existe esse conceito, nem carros estacionados em cima do passeio. Por isso, vive-se ainda uma realidade social diferente, onde pelos vistos a boa vizinhança se practica.

Subindo a calçada de São Miguel por entre as bonitas laranjeiras plantadas, vai-se começando a ter outra perspectiva do bairro e repara-se em pormenores que pensávamos não existirem mais em Lisboa, como os tanques da roupa prostrados à porta de casa.

Caminhando pelas vielas, sente-se outra atmosfera, onde nem o bulício urbano nos perturba, como se este fosse um mundo à parte. Continua-se a subir até à igreja de Santa Luzia que marca um dos limites norte do bairro. Uma vez aqui chegados, é tempo de desfrutar das vistas de um dos melhores miradouros de Lisboa, o de Santa Luzia. Em baixo de nós, os telhados desordenados de Alfama exibem-se formando um conjunto complexo de ruas labirínticas. Em frente, o porto de Lisboa e o Tejo onde alguns cargueiros repousam nas docas do Jardim do Tabaco, provavelmente à espera de carga. Para oriente, o Mosteiro de São Vicente de Fora quase ao lado, a cúpula de Santa Ingrácia, que demorou tanto tempo a ser feita, que ficou conhecida por ser inacabada. Mas hoje, por cá repousa o poeta Camões. Depois, se ainda houver força nas pernas, faz-se outra investida e desce-se pelo beco de Santa Helena até se encontrar a rua do Castelo. Continua-se em frente até o beco de Loureiro e largo de Santo Estêvão. Ai, Está a igreja com o mesmo nome, que oferece também outra vista deslumbrante, numa perpectiva mais oriental sobre o bairro.

N'Dalo Rocha 2003-01-20

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