Quem conhece o Douro sabe que não se deve surpreender com o muito que este ainda tem por revelar. A região por onde passa o caudal deste rio é fértil em culturas características, modos de vida tradicionais e produtos que ganham fama além fronteiras. Mas desengane-se quem pensa que do rio Douro apenas se podem contemplar as frondosas vinhas. Fomos encontrar, na região de Armamar, Tabuaço e Moimenta da Beira, um conjunto de aldeias bem preservadas, daquelas que imaginamos estarem nos livros de outrora.
A viagem começa bem cedo. Saímos do Porto antes do pequeno almoço e decidimos que iríamos contemplar já a manhã entre as freguesias que íamos visitar. Menos de 150 km, uma distância curta para tamanha diferença de feitios, gestos e costumes. Do maciço de tecnologia da grande cidade encontrámos uma paisagem sem fronteiras, sem nada que nos atrapalhasse a visão. O distrito do Porto termina e começa numa curiosa fusão entre Vila Real e Viseu, apenas separada pelo curso do Rio Douro, que atravessámos na Régua. De repente, tudo é mais verde, o granito fala mais alto e por todo o lado surgem felicitações à principal cultura da zona: a maçã. O fruto está na beira da estrada, juntamente com outros produtos da região, saudando quem passa. Passando Armamar, a primeira aldeia que nos cumprimenta é Gojim. Uma rua estreita ao lado do cemitério enquadra perfeitamente um solar no resto das construções. Casinhas inclinadas, outras beijando as da frente, muitas com escadinhas e alpendres das boas vizinhas. Tal como nos filmes. O cachorro ladra, muitos até. Não podemos deixar de reparar na afectuosa ligação que existe por estes lados entre os habitantes e os animais. Em Gojim há também uma capela, onde se avista a memória de toda a aldeia.
Mais à frente, Lumiares. É fácil perceber que estamos a entrar numa aldeia bem cuidada: as casas estão recuperadas, as placas das ruas são verdes e em vários locais nota-se a inscrição: “aldeia preservada”. Em Lumiares passeámos pelo largo da igreja, com os habituais convivas de alguma idade nas escadas da frente a matutar sobre algum assunto da aldeia. Vive-se com calma, aqui. As portas das casas estão abertas ao leve sopro de fim de Verão, as crianças passeiam na rua porque é fim de semana e os sinos tocam quase sempre. Estas aldeias fazem parte de um projecto de recuperação do Centro Rural de S. Martinho das Chãs, aldeia que visitámos a seguir. Nota-se que S. Martinho das Chãs é a parente rica por estes lados. Muitas mais ruas, com mais casas recuperadas, algumas até visivelmente modificadas, com algumas melhorias da tecnologia. Mas tudo com muito bom gosto. S. Martinho das Chãs tem uma imponente igreja do século XIII, a Igreja Matriz, capaz de fazer inveja a muitas outras aldeias. Subimos ao campanário e de lá vimos toda a aldeia como se fosse um emaranhado de história: as ruas afunilam entre casas com vários séculos, permitindo-nos sentir um pouco do que é o Portugal profundo.
Álvaro Curia 2003-09-09