Chegar até ao cimo é um verdadeiro desafio. Mas o que se impôe é descobrir uma aldeia pré-histórica construida no cume do monte de São Lourenço e recentemente recuperada pelos Serviços de Arqueologia da Câmara Municipal de Esposende. Trata-se de um conjunto de casas circulares e rectangulares perfeitamente reconstruidas para parecer que vivemos em plena idade do ferro. Partindo de uma base circular, os arqueólogos construiram pequenas casas com telhados de olmo para que os visitantes possam ter uma verdadeira noção das condições de vida dos povos primitivos. Entre as casas, pequenas ruelas íngremes e estreitas servem de ligação entre os principais pontos da aldeia. O Castro de São Lourenço situa-se na freguesia de Vila Chã, num dos cumes que integram a arriba fóssil da zona. Subindo até ao ponto mais alto do monte, tem-se uma visão ampla e perfeita sobre toda a orla costeira onde desagua o Rio Cávado, desde a Apúlia, passando por Ofir, Esposende e no extremo Norte a Foz do Neiva. Em dias de céu limpo, a beleza do local é imensa, pelo verde dos campos cultivados que contrasta com o escuro do mar do Norte e as dunas de areia salpicadas de casas. Acreditamos, assim, que na Pré-História sabiam bem escolher os locais para morar! Pelo menos a avaliar pela paisagem... A primeira ocupação deste castro data do Calcolítico, ou seja, o milénio III a.C. Na Idade do Ferro, os primeiros vestígios datam do séc. V-IV a.C. e deles constam algumas cerâmicas áticas provenientes do Mediterrâneo Oriental. A presença romana é atestada pela presença de construções, denários e de um altar dedicado a uma deusa. À Idade Média pertence uma pequena fortaleza construída ao redor da actual capela.
A comunidade indígena primitiva construiu casas circulares ou rectangulares consoante as influências sofridas. Nelas se realizavam certas actividades do quotidiano, entre as quais o armazenamento, conservação e produção de alimentos, a tecelagem, o convívio e o descanso. Distribuidos em núcleos familiares, toda a povoação estava rodeada e protegida com uma muralha e um fosso, visíveis ainda em certas áreas do seu perímetro. A cronologia do primeiro sector do castro, aquele onde se vêem as casas totalmente recuperadas, aponta para uma ocupação entre o séc. III/ II a.C. e IV d.C. Mais antigos são uns muros que foram reaproveitados para casas circulares erguidas no câmbio da era. Pelo contrário, a casa sub-rectangular, apoiada noutra que foi destruida pela queda de um grande penedo, é a construção mais recente. Juntas formam núcleos habitacionais com o interior rebocado e pintado a branco ou amarelo com rodapé cinzento. O chão era feito com barro bem amassado e calcado. Ao centro das casas ardia o fogo e estava apoiado o poste que permitia erguer o telhado. Na mudança de era, a cobertura era feita com folhas e ramos de árvore- mais tarde, com os romanos, aparece a «tegula», ou seja, a telha.
Álvaro Cúria 2003-01-07