Aldeia da Palhota

Ouvimos falar de uma velha aldeia palafítica na margem norte do Tejo, lá para as bandas do Cartaxo. Fomos lá ver como era.

A caminho da Palhota

Em plena vila da Azambuja ainda é possível comprar fruta à berma da estrada, uma velha tradição portuguesa que infelizmente se tem vindo a perder. Meio quilo de uvas depois, já com o estômago aconchegado, começo a pensar como hei-de fazer para chegar à Palhota. Seguindo as indicações do velhote que me vendeu a fruta, pus-me a caminho por uma estrada secundária que se perdia pela lezíria.

Andando, ou melhor, conduzindo, acabei por me distrair sintonizando uma rádio local, mais propriamente o programa do professor Bambu. Trata-se de um senegalês que fala francês e cura tudo, sempre com a ajuda incansável da sua assistente portuguesa que por acaso também se presta ao papel de tradutora. É sempre bom sabermos que os samaritanos do mundo se preocupam com a desgraça alheia.

Continuo devagar, que a estrada não dá para muitas velocidades. A paisagem dá indicações que o rio não está longe, facto que é perceptível pelos inúmeros canais de rega e alguns açudes que cruzam o meu caminho. À esquerda e à direita, as plantações de tomate vão tomando conta da paisagem. Parados nas bermas, enormes camiões de caixa aberta exibem carregamentos de tomates bem vermelhinhos, bons para cozinhar. Ainda tento meter conversa com um dos capatazes na esperança de obter uns quantos para mim, diga-se de passagem, tentativa frustrada. O homem não foi na conversa. Enquanto não chego à Palhota, a minha próxima distracção é fazer tiro ao alvo aos poucos tomates que saltaram dos atrelados e se esborracharam no chão. E olhem lá que nem sempre é fácil acertar-lhe com a roda em cima. Uns poucos minutos, quase sem dar por ela, estou em Reguengo onde o asfalto acaba e até à Palhota são dois quilómetros por uma estrada de terra batida. O carro levanta pó, mas pouco importa, pois campo é isto mesmo.

Palhota

Cheguei e surpreendentemente, encontrei pouca gente, para não dizer quase ninguém. Casas de várias cores assentes em estacas de cimento e não de madeira, pequenas hortas por entre os quintais, umas galinhas, patos e pintos que saltitam.

Árvores e verde a toda à volta. Afinal isto é que é a Palhota!
Sem dúvida, é um lugar simples e muito castiço. Contornando as casas pela direita, chego ao porto e estaciono. Junto ao passadiço de madeira, dezena e meia de pequenos barcos estão amarrados a estacas e repousam no lodo, pois é tempo de maré baixa. Têm a proa em formato de meia lua e chamam-se avieiros, porque os pescadores da Palhota vieram quase todos de Viera de Leiria, onde não podiam pescar no Inverno.

N'Dalo Rocha 2003-09-30

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