Vale a pena ir ao Gerês. A pouco mais de 40 quilómetros de Braga, no Alto Noroeste de Portugal, é um dos locais mais bonitos do país. As suas paisagens, sempre com a Albufeira da Caniçada como pano de fundo, merecem por si só um visita. São perto de 72.000 hectares ao alcance do espírito aventureiro de alguns, mas impossíveis de descobrir num fim-de-semana, muito menos dentro de um carro. Para ver bem, é obrigatório andar a pé e o tempo é sempre pouco. Por isso, há que estabelecer prioridades. Para quem visita o Parque Natural é obrigatório ir à Cascata do Arado. Um local retirado dos filmes que preenchem o imaginário infantil de todos nós. O passeio começa no final da vila do Gerês e é feito através de uma estrada com 11 quilómetros de terra batida. Apesar do mau estado do piso, no começo do percurso pode levar o carro, mas não abuse. Os buracos são muitos, mas isso faz parte da aventura. Não se admire se tiver, inclusive, que sair para verificar se o carro realmente passa ou não. É nestas alturas que desejará ter um jipe. Não se preocupe, acontece a todos. Pode sempre aproveitar essas paragens para deliciar-se com as várias ribeiras existentes, onde a água vai caindo lentamente sobre as pedras. Ou refrescar-se numa das pequenas fontes. É bom. O primeiro ponto de paragem está a nove quilómetros de distância e chama-se Pedra Bela. O nome está bem escolhido e aí encontrará dois miradouros, o Novo e o Velho, onde se perdem algumas horas olhando de longe a vila cada vez mais pequena à medida que a distância percorrida aumenta. A partir daqui é altura de seguir a pé. Continue pela tumultuosa estrada até chegar ao destino traçado no início do percurso. O barulho, cada vez mais audível da água a cair, indica a proximidade da cascata. Antes terá que passar pela ponte do Arado. Por baixo corre um riacho salpicado de pedras. Se o tempo permitir, nas margens, algumas pessoas aproveitam para apanhar sol. E dentro de água, crianças e adultos numa cumplicidade enternecedora, vão saltando de rocha em rocha. A cascata é logo ao lado, mas quase passa despercebida. Para lá chegar tem que subir umas pequenas escadas junto ao riacho. Também aí há gente que vai mergulhando na água gelada.
Depois do esforço, a recompensa
O sol começa a pôr-se e é altura de pensar em regressar. Para recuperar as forças para o dia seguinte, há que comer bem e descansar o melhor possível. O que, de resto, no Gerês não é difícil. Provando que a região não se esgota nos passeios e paisagens, a gastronomia, uma das melhores do país, e a qualidade de alguns serviços hoteleiros, são outras das características que tornam o fim-de-semana ainda mais agradável. O melhor, e seguindo a velha máxima de que “homem prevenido vale por dois”, é reservar com alguma antecedência o local onde vai instalar-se. A paisagem é bonita, mas dormir ao relento não é o ideal.
A Quinta do Agrinho, em funcionamento há cinco anos e localizada a sete quilómetros da vila, na estrada que conduz Amares, é uma excelente opção. Aqui poderá experimentar, no verdadeiro sentido da palavra, a qualidade do turismo rural. E logo à chegada. A entrada faz-se através de uma estreita e complicada descida, onde os buracos e curvas de 180 graus o farão sentir o melhor condutor do Mundo. Mas depois de atravessar o portão tudo é desculpado. Do lado direito, uma casa tipicamente da serra, construída à base de pedra e madeira, virada para a barragem, a poucos metros de distância. É a casa central da quinta. Aí ficam os sete quartos disponíveis, caracterizados pelo bom gosto e simplicidade.
O chão, de madeira claro está, range à medida que os pés se vão movimentando, enquanto a vista da janelas ao final da tarde faz as delícias dos hóspedes. Ainda na mesma casa, a sala de jantar é guardada por uma simpática cozinheira, que ao pequeno almoço se desdobra levando o pão e o leite aos famintos clientes, ansiosos por mais um dia de aventura. Para além disso, pode sempre ficar instalado numa das quatro agradáveis casas de campo, equipadas com lareira e piscina privada. Um luxo.
É hora de ir jantar. Diz quem sabe que o Cruzeiro, situado em Bouro - Santa Maria - é o melhor restaurante da zona. A especialidade da casa é o cabrito assado, e por isso é o mais caro. Se não for grande apreciador deste prato, opte por uma vitela ou então por um salmão grelhado na brasa. A acompanhar, como não poderia deixar de ser, um tinto da região. E para finalizar, uma delícia de morango e um café. O preço por refeição ronda os três mil escudos.
Mais perto, na vila do Gerês, existem vários restaurantes. A adega do Carvalho, pela qualidade e simpatia do dono, merece uma visita. Predominam os pratos típicos da região, onde se destacam o bacalhau à minhota ou os rojões e as doses impressionam pela quantidade. Não se atreva a comer uma sozinho, arrisca-se a permanecer no restaurante mais de duas horas. À noite, já a caminho do quarto, faça uma breve passagem pelo Bar Adega Bago D’Uva, na antiga corte da Quinta do Agrinho. É bom para beber um digestivo em sossego antes de ir dar repouso ao corpo.
Mais uma volta
O dia seguinte, que começará bem cedo, está reservado para mais um passeio, desta feita na Mata da Albergaria, uma zona envolvente à estrada que liga a vila do Gerês à Portela do Homem (fronteira com Espanha). Sem qualquer hipótese de utilizar o carro, não resta outra alternativa senão deixá-lo junto à estrada e andar. Muito ou pouco, isso depende do que se quer ver. A vegetação é substancialmente diferente do outro percurso. O granito das rochas dá lugar ao verde em vários quilómetros de extensão. Na Mata da Albergaria não existem estradas, sinal da ausência da mão do homem, o que torna a aventura ainda mais emocionante. De qualquer forma não arrisque em ir sozinho. Tente juntar-se a outro grupo nesta expedição por entre as árvores e riachos, onde só pequenos raios de sol conseguem penetrar. Os cavalos selvagens fazem parte desta área protegida do Parque Nacional e aparecem de todos os lados. Por detrás das árvores, junto aos ribeiros ou no meio do enquadramento de uma qualquer fotografia. Vale mesmo a pena ir ao Gerês.
Nuno Maia 2001-05-30