Antes mesmo de se chegar ao cabo Espichel existe uma estrada de terra batida à direita. Estaciona-se e segue-se o caminho (que por enquanto é só um, portanto não há nada que enganar). São apenas 2 quilómetros até à Praia dos Lagosteiros, por isso não há motivo para desânimo. Para quem conhece, não será difícil identificar no meio de toda esta vegetação estevas, urzes, aroeiras, zambujeiros e outros tipos de plantas. Conforme se avança somos brindados por aromas tão diferentes como o alecrim e a alfazema. Respira-se um ar puro que nenhum ambientador de supermercado consegue imitar, por isso, aproveita-se para encher os pulmões porque sítios destes são cada vez mais raros. Avançando no terreno, apercebemo-nos de que o stress também é extensivo às plantas. Para o combaterem, as diversas espécies encetaram conjuntamente uma estratégia de auxílio mútuo face a um inimigo comum: os ventos fortes, o sal do mar e… os motociclistas, inibidores do desenvolvimento da vegetação. Com o barulho que fazem, os ironicamente chamados “amigos das dunas”, espantam a passarada que, foge para bem longe. Isto claro, sem se contar com os novos trilhos que abrem impedindo o crescimento das espécies botânicas. O efeito final desta parceria inter-espécies resulta num autêntico conjunto, colorido e diversificado. O porte reduzido e a forma arredondada da flora desta zona faz com que seja vulgarmente chamada de “almofada”. Mas é só mesmo pela forma que assim é apelidada porque a textura é bem áspera.
Pegadas de dinossauro
Uns metros mais abaixo encontra-se uma bifurcação. À esquerda, surge o curso cavado por uma antiga ribeira que desaguava numa destas praias. Sinais de outros tempos… Para a direita é o caminho a seguir, sempre, até se avistar o mar. Depois de se chegar junto ao precipício, vêem-se surpreendentes pegadas de dinossauros. Olhando com atenção percebe-se claramente que o caminho definido por estes animais vem da zona onde hoje é o mar. E diz-se hoje, porque há cerca de 70 milhões de anos não existia o oceano. O terreno, quase na vertical, está assim não porque os dinossauros fossem equilibristas. Resulta da evolução geológica que fez mover as placas calcárias.
Os gigantes que por aqui passaram moviam-se com o auxílio das quatro patas e, apesar do peso da cauda, também não a arrastavam constantemente. A confirmar a teoria, lá estão as marcas das patas (de forma arredondada) e da cauda (de forma rectangular).
Não deixa de ser curioso conhecer a história dos dinossauros nesta zona. Diz-se que, há muitos séculos atrás, vinha Nossa Senhora da Mua montada no seu burro e que se deparou com a falésia. Corajoso, o animal, conseguiu subir toda aquela escarpa, ficando o seu rasto cravado na pedra. A lenda correu como o vento e ali mesmo junto ao cabo foi construído um templo, cujos azulejos contam precisamente esse acontecimento. Só que as pegadas, no fim de contas não eram de burro, mas sim de dinossauro.
Como o cabo Espichel está ali tão perto, não seria mal lembrado uma passagem pelo santuário, não só para descansar da caminhada, mas também para pedir pela que se segue (de maior extensão).
A Arrábida
Daqui segue-se para a Arrábida, mais precisamente para a aldeia de Casais da Serra. O melhor é estacionar em frente ao café Bom Petisco já que o caminho é em frente. Passa-se por algumas casas em construção e segue-se pela estrada de terra batida. Agora são 6 quilómetros de passeio a pé e assim é que tem de ser. Afinal as preciosidades encontram-se bem guardadas, não ao alcance de todos. À medida que se avança sentimo-nos entrar num mundo desaparecido, só possível nos cenários do cinema.
Diz quem sabe que a vegetação da Arrábida é a mais selvagem do país inteiro. Se ainda existiam dúvidas de que Portugal é um país mediterrânico, esta serra está aí para provar. Se não existisse intervenção humana, as matas de Portugal seriam como a Arrábida. Possuiriam essencialmente árvores pertencentes ao género Quercus, tais como os sobreiros, a azinheira, o carvalho… Tudo espécies que aqui é possível observar.
Pelo caminho, encontra-se uma lagoa, sente-se o vento, ouve-se um ribeiro… e continua-se a andar. Percebem-se uns cantares à desgarrada mas não são pessoas escondidos no meio da mata. São pássaros que brincam ao jogo do esconde-esconde, não deixando que ninguém lhes ponha a vista em cima. Brincalhões…
Paula Oliveira Silva 2002-04-16