Em pleno centro da Vila de Mafra, é difícil não observar uma vez mais o magnífico Convento, principalmente agora que se encontra de cara lavada. O silêncio sente-se, ou melhor, ouve-se, mas não deixamos de imaginar o som que aquele fantástico conjunto de carrilhões produzira em tempos. E para quem leu Saramago, mais fácil se torna ainda fazer este exercício de imaginação, quando Mafra recebia os reis.
Passado o aperitivo, parte-se em direcção ao objectivo que se encontra a alguns quilómetros adiante, nas profundezas das encostas dos vales. Fala-se da Tapada de Mafra, só que desta vez não vamos lá para visitar os bichinhos. Desta vez o propósito é calcorrear caminhos de terra batida numa actividade chamada foto-orientação. Não há bússolas para ninguém, e cedo percebemos que é necessário manter os sentidos apurados.
Preparativos para a jornada
Ao chegarmos à Tapada, entramos e estacionamos o carro já dentro do perímetro do muro, ouvindo o “clanc” do pesado portão de ferro que se encerra após a nossa passagem.
Verificamos o equipamento que não é muito, dado o reduzido grau de dificuldade da tarefa. Umas calças de ganga e um par de botas, assim como a pequena mochila para a garrafa de água e alguma peça de fruta. Ah, e não se esqueça da capa de chuva, não vá São Pedro tecê-las, numa área que apresenta elevados níveis de pluviosidade durante o ano inteiro. É que tanta vegetação concentrada num vale acaba por criar um microclima. Feita a verificação do material, preparamo-nos para enfrentar os longos quilómetros das próximas duas, três ou quatro horas, dependendo da cadência do passo, assim como o tipo de percurso que elegermos. Seguidamente, vamos para a recepção, onde adquirimos por empréstimo o famoso guia, ou melhor álbum fotográfico que nos dá duas possibilidades: o percurso de sete ou de onze quilómetros! Bem, fica ao gosto de cada um, ainda que é conveniente ponderar algumas variáveis, como a nossa vontade de caminhar, boa preparação física e alguma força nas pernas. Se por acaso algum dos anteriores motivos for desadequado, então o velho pretexto de queimar calorias serve lindamente. Antes de partirmos a senhora da recepção ainda se dá ao trabalho de explicar o óbvio, ou seja, como se usam os álbuns. Parece e é simples de manusear, ainda assim há gente que se equivoca frequentemente, por isso oiça com atenção ou não lhe vá acontecer a si a mesma sorte. Ponderados todos os factores e escolhida a rota, avançamos.
Os primeiros 1200 metros
O livro indica-nos que os primeiros 1200 metros são em frente. Não custam muito a fazer e prolongam-se pela estrada de terra batida que durante o primeiro quilómetro segue paralela ao muro de pedra da Tapada.
A seguir, o caminho inflecte para o interior da serra e a inclinação da subida acentua-se. Encontramos ribeiras que descem do cume e cavam pequenos sulcos no chão, árvores com os troncos rodeados de musgo e alguns fetos, que dão um ar bucólico ao quadro natural.
Conforme avançamos, torna-se fácil seguir as instruções do livro, quer à esquerda ou à direita. Vamos ganhando destreza na identificação das fotos, na interpretação da leitura dos sinais.
N´Dalo Rocha 2003-05-27