Mata dos Medos
Às onze da manhã de Sábado, vinte caminhantes juntam-se em frente ao quartel dos bombeiros da Costa da Caparica. Apesar dos seis graus de temperatura que são trazidos pelo vento, ninguém parece intimidar-se perante as adversidades do clima. Equipados a rigôr para caminhar, todos calçam botas de trecking e vestem calças práticas, camisolas térmicas, kispos, gorros, para além das mochilas day pack onde guardam as garrafas de água, os termos de chá e as preciosas barras de energia às quais recorrem para reporem as calorias. Rapidamente os membros do grupo travam conhecimento para depois seguirem o carro de Luís, o guia que irá levar a expedição a bom porto nas próximas sete horas por entre terras da Caparica, totalizando 11 km a pé.
Ao fim de meia dúzia de quilómetros, finalmente chegamos ao ponto de partida, um parque situado no meio de um pinhal, próximo da praia da Fonte da Telha. Então é altura de recebemos o curto briefing, para em seguida nos pormos a caminho, ou melhor em marcha.
Em fila indiana e com Luís na cabeceira do pelotão, começa-se a penetrar nos meandros da Mata dos Medos, que ao contrário do que se supõe, trata-se de um lugar muito apetecível. É que medo é também outra designação de dunas, daí que faça todo o sentido que estes 338 ha de arvoredo, na sua maioria pinheiros mansos, tenham este nome tão temerário. Este pinhal que nasceu da vontade de D. João V, que decidiu por decreto real mandar plantá-lo como forma de travar o avanço dunar. Brilhante ideia real e a natureza agradece. Com mais atenção, vamos reparando na restante fauna enquanto Luís, nos alerta para algumas curiosidades como o facto de apenas os pinheiros bravos produzirem resina ou que as cobras sem bossas não são venenosas. Por aqui e acolá, a natureza mostra-se nas tocas de ratos do campo, para além dos zimbros, traviscos, medronheiros e carrascos que compõem a aguarela natural de tons verdes que se ergue sobre a areia branca das dunas. Subitamente, encontramos uma mesa de madeira, onde Luís diz ser frequente encontrar autênticos banquetes servidos, com comida e até garrafas de whisky. Não se trata de nenhum piquenique esquecido, mas sim oferendas feitas por adeptos de seitas esotéricas que frequentam a mata de noite. E o mais curioso, é que durante o dia ninguém mexe em tais presentes que posteriormente acabam por ser recolhidos pelos guardas florestais.
Vila da Costa da Caparica
Pouco a pouco, pé ante pé, vamos atravessando caminhos rurais e corta-fogos abertos pelos bombeiros, para manterem a mata mais limpa. Subitamente, deparamo-nos com uma enorme clareira, resultuado de um incêndio que aqui deflagrou há mais de dez anos, deixando marcas ainda visíveis, a começar pelo reduzido tamanho das árvores.
Prosseguimos e começamos a sentir os pés mais pesados. Ainda não é o cansaço, pois só levamos uma hora de marcha, contudo, a areia tornou-se mais fina, dificultando o apoio dos calcanhares. A situação está longe de ser crítica e a tracção às “quatros rodas” é só para ligar mais tarde, quando fizermos o regresso pela praia, porém ainda é cedo para pensar nisso.
Perdidos nestas deambulações, chegamos ao primeiro miradouro. Lá em baixo o mar, tranquilo e azul que quase apetecia se não fosse o frio. E junto a ele, o enorme areal que se estende infinitamente até aos prédios brancos da Vila da Costa da Caparica. Esta que começou por ser apenas uma vila de pescadores vindos maioritariamente da península de Setúbal, nem sempre se chamou assim. Segundo a tradição popular, havia uma senhora velha que toda a vida mendigou e quando morreu, doou a sua capa à igreja. E qual não foi o espanto do padre que descobriu que estava forrada de moedas de ouro. Daí ficou, capa rica, originando Caparica. A explicação científica contrapõe com o topónimo Caparis, o nome latino da alcaparra que existia com fartura na região. Enfim, o velho duelo de sempre, ciência vs. tradição.
Olhando mais adiante, descobre-se a imponente serra de Sintra, a costa do Estoril e mais próximo de nós, o estuário do Tejo com o enigmático forte de São Julião da Barra. Uma paisagem de postal que nem sempre foi assim, pois no início do século XX os pescadores da Costa costumavam fazer uma procissão a pé...até ao forte. Parece impossível nos dias de hoje, só que há 80 anos sempre que a maré baixava, surgiam por algumas horas sólidos bancos de areia que ligavam aquela fortaleza, chamada de São Lourenço da Cabeça Seca à Caparica.
Hoje, até a travessia a nado é desaconselhável devido às fortes correntes, mas há quem atribua o desaparecimento dos bancos de areia às barragens que se construíram no Tejo, pois desiquilibraram o assoreamento natural que existia na foz.
N'Dalo Rocha 2003-01-14