O ponto de encontro é junto ao farol do cabo da Roca, mais propriamente, no bar. Aos poucos, os amigos vão-se agrupando até estarem todos. Depois parte-se, ou melhor, caminha-se.
Começa-se cedo para aproveitar bem o dia e o sol da manhã, isto é se o tempo ajudar, até porque nas falésias da costa de Sintra são frequentes as vagas de nevoeiro.
Alinhados em fila indiana, o grupo estende-se ao longo da estrada de asfalto que nos leva a Azóia. Mas não se preocupe porque o verdadeiro passeio ainda mal começou. Passados trezentos metros corta-se à esquerda por um atalho de terra batida. Agora são só mais seis quilómetros fora de estrada até o fim.
Falésias íngremes
Lentamente, o farol começa a ficar mais longe conforme nos aproximamos da falésia, alta, verde e muito ventosa. Até agora o percurso não regista dificuldades de maior, resumindo-se a um estreito carreiro por entre uma escassa vegetação de arbustos rasteiros.
Se o sol brilhar, melhor, pois a vista sobre o mar é de sonho. Como por aqui não há praias de areia, lá em baixo vê-se apenas a espuma da rebentação que investe contra a falésia. No meio do manto branco da água aparecem algumas rochas pequenas que se voltam a esconder debaixo do mar. E enquanto se vai observando a natureza, chega-se à primeira grande descida. Aos poucos, começa-se a descer, ou melhor a travar com as pernas. Nesta altura do campeonato, convém ter atenção para não se deixar embalar, senão, travar pode ser bastante complicado para não dizer perigoso.
E como tudo o que desce sobe, lá começamos nós a subir no meio da encosta apinhada de chorões. Esta espécie que foi plantada inicialmente na praia do Guincho para deter o avanço da areia, espalhou-se rapidamente por toda a costa, competindo com a vegetação local. Enfim, o resultado de experiência botânicas.
Praia da Ursa
Algumas centenas de metros adiante encontra-se a segunda grande descida. Mas antes, olhando para o mar não ficamos indiferentes a dois enormes penhascos que se separam do resto da falésia, dois colosso de pedra que impressionam pelo tamanho. Trata-se da pedra de Alvidrar e a da Ursa. Esta última tem o mesmo nome da minúscula praia de areia que existe mesmo ao lado.
Lava-se as vistas e lá nos preparamos outra vez para descer. É que, se na primeira descida era preciso fazer força nas pernas para travar, agora é melhor puxar pelo ABS para não derrapar. Chegados lá abaixo, salta-se sobre a pequena ribeira da Ursa e tem-se a melhor vista para a praia com o mesmo nome.
E ao começarmos a subir, qual não é o espanto de ver a carcaça de um jipe que escorregou lá de cima. Se calhar alguém se esqueceu do travão de mão. Atenção, é preciso ter cuidado.
Continua-se a subir e a puxar pelo corpo, até se atingir o novamente o topo da falésia.
Arbustos e poços
Continuando em fila indiana, encontra-se mais outra surpresa. Um mato cerrado de arbustos, daqueles que arranham mesmo. É melhor observar bem, não se vá meter por um trilho errado e ter que voltar para trás. Vencida mais esta adversidade extremamente agressiva para a epiderme, deparamo-nos com algo insólito. Desta vez trata-se de uma cratera no meio da falésia que permite observar o mar. Os locais chamam-lhe o buraco do fojo e formou-se já há alguns milhares de anos, após o deslizamento de terras. A vista de cima é intimidadora, afinal, são 90 metros a pique e lá em baixo o barulho das ondas que entram na caverna ecoa por todo o lado. Podia ser um excelente cenário para um filme de terror, mas tem algo de selvagem e perigoso. Felizmente há uma protecção à volta que nos deixa observar sem problema algum.
N'Dalo Rocha 2002-03-12