Trinta quilómetros a pé não é tarefa fácil, mesmo para os mais corajosos. De qualquer forma, e mesmo que não se consiga fazer o percurso inteiro, o que até é normal, vale a pena ir a Barca de Alva e percorrer o mais que se conseguir do velho troço da linha de comboio do Douro, que em tempos ligou o Pocinho a esta terra.
Mesmo que se façam só meia dúzia de quilómetros a pé, entrando e saindo do carro com a regularidade de quem não acredita em maratonas no meio do campo.
Há muito que os comboios deixaram de apitar aqui. Hoje os carris estão invadidos por ervas e arbustos, com cerca de meio metro de altura. Sinais de um abandono prolongado a que a população mais antiga destas aldeias ainda não se conseguiu habituar. “Antigamente é que era bom, havia muito mais movimento, hoje estamos afastados de tudo”. A frase é de uma simpática velhota a quem a linha do Douro deu emprego durante muitos anos. Hoje, e com o encerramento do troço, passa os dias entre o café e a sua casa perto da antiga estação de Barca de Alva. É aí, precisamente, que começa o percurso.
Atrás do comboio
Planeada para ser uma importante unidade hoteleira, a estação continua ao abandono, cada vez mais degradada. Ao chegar é impossível não fazer um exercício de memória e tentar perceber como seria o movimento. Inaugurada a 9 de Dezembro de 1887, as portas em madeira velha, já sem tinta e permanentemente abertas, e as janelas com os vidros partidos remetem-nos para essa data. Tempos em que as pessoas passavam por aqui em direcção a Salamanca, em Espanha. Hoje está deserta de gente, mas beleza à volta é coisa que não lhe falta. Se a ideia não for seguir religiosamente o traçado completo da linha a pé, então vale a pena ficar por aqui algumas horas e andar o máximo que se conseguir. E nem é preciso muito tempo para encontrar motivos para voltar a parar. Mais ou menos três quilómetros depois, existe uma passagem de nível antiga, hoje sem guarda e rodeada de campos agrícolas. Do lado direito da linha, o rio Douro convida a um refrescante mergulho. A água mistura-se com o verde da paisagem, num cenário difícil de descrever. Mais à frente encontram-se alguns túneis, mas o melhor é não se avançar muito além disso para não se perder as forças para o resto do passeio.
Próxima paragem
Para quem não quer fazer o percurso todo a pé, está na altura de voltar para o carro. A próxima paragem é Almendra, uma freguesia do concelho de Vila Nova de Foz Côa, com cerca de 500 habitantes, mais ou menos a 17 quilómetros de Barca de Alva. Era ali que o comboio, na altura em que ainda por aqui passava, voltava a parar para recolher passageiros. O cenário não é muito diferente de Barca de Alva. A estação, com o mesmo nome da povoação, fica a 10 quilómetros de Almendra. Também aqui o estado de degradação é avançado. A beleza da paisagem, essa, continua intocável. O movimento é maior, e no rio é normal as pessoas que passeiam de barco acenarem para quem percorre a pé a antiga linha de comboios.
Fim da linha
Nuno Maia 2001-08-29